domingo, 24 de abril de 2011

Não adianta, não adianta nada, o castelo de cartas está a um passo de desmoronar.

domingo, 17 de abril de 2011

Rascunhos & Esboços - MarianaLaura

- Haja coragem!

Laura estava sozinha. Não sentia-se sozinha, a solidão não lhe era movediça como as saudades, não inflamava como as paixões, não, a solidão de Mariana era quieta como um objeto. Era quieta como todos os objetos. Era maciça como eles, imóvel, inexpressiva, infinitamente repetida ao longo do tempo até que tivesse perdido todo o significado, toda a emoção, Laura mesmo pairava sobre o seu próprio corpo como um fantasma de si em um sonho e assistia aos seus cabelos loiros volumosos emoldurando um rosto que era um objeto. Que não sofria. E ainda assim, pressentia ela, aquela não era a liberdade.

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Proporções muito simétricas e LPS espalhados pelas paredes. Um curso sobre meteoros, tal qual havia lido em um livro do Cortázar, um cabide e um corpo de mulher, uma máquina fotográfica quebrada, uma caixa de presentes vazia, um papel higiênico sobre a mesa de quando ela havia se resfriado, os rostos desenhados nos LPS, as músicas gravadas no mp3, todas as folhas, as folhas, as folhas que ela não tinha coragem de selecionar para o lixo, um pouco temendo as traças, um pouco temendo o trabalho, um pouco temendo as lembranças, pois sabia que seu nariz, seu olhos, sua orelha deviam estar desenhados em algumas daquelas folhas. O móbile! O móbile de rosa de fita, ganhado em um aniversário dentro de um saco de pão juntamente a uma embalagem com bombons de limão, eram horríveis os bombons, embora fosse sempre bom ganhar um docinho, ganhar um agrado, por que será que ela tinha ganho aquilo? E mais ao lado o armário com toda sua monstruosidade e toda sua ostentação, os vestidinhos coloridos, brilhantes, longos, curtos, sóbrios ou desvairados, as meias, os sutiãs enfileirados como uma fila de soldados, solenes soldados sexuais, toda a responsabilidade dos sutiãs e seus rifles escondidos entre as fitinhas e os buquês de flores.

As flores eram muito importantes e estavam do lado de fora, penduradas nas árvores. Ela se lembrava das flores, que parecem ser mais coloridas que o resto do mundo, muito embora sejam tão coloridas quanto o resto do mundo, talvez haja algo dentro da imprevisibilidade nas cores de uma flor, como há em um papel celofane ou em um sorvete de massa, mas diferentemente do que aconteceria com ervilhas rugosas ou alfaces crespas.

O fantasma de Mariana-Laura que pairava sobre o corpo de Mariana-Laura aos poucos foi se assustando com o redemoinho formado ao seu redor. Os próprios cabelos loiros iam se inflando para cima como se houvesse uma saída de ar quente exatamente sob os pés de Mariana-Laura, e o seu rosto objeto também começava a sorrir.

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Por que você não vai se danar, Jorge, seu folgado.

Uma típica cena familiar.

Acontecia em um típico cenário familiar: havia uma cozinha, um calendário, um pano de prato pendurado, além disso havia uma esposa amarga, um homem endurecido, mas a cozinha não era nem de um nem de outro, e tampouco eles eram marido e mulher, já que então cada qual somava com alguma dificuldade dezesseis anos, moravam separado junto com os seus pais. Que não brigavam na cozinha. Na realidade, não brigavam muito. O pai de Mariana possuía oculozinhos simpáticos sobre o rosto e embora tivesse que conviver com a eventual urge de estrangular a esposa ou espetá-la com um canivete até vê-la morta, no geral era um homem muito pacifista, e nos dias que não possuía paciência alguma, afetava-a como ninguém. E os pais de Jorge às vezes brigavam. Mas era mais por causa da seleção de frutas na geladeira ou o tipo de refrigerante comprado ou as pessoas convidadas para o jantar do que outras coisas. E um só mandava o outro se danar em casos muito sérios. Evitando, também, dar muita ênfase ao insulto que era para ao causar polêmica.