- Olha, nenhum leão me mordeu a cabeça quando eu era pequeno. Não fiz nenhuma coleção até o final, nem de pedra, nem de fita, nem álbum de figurinha eu terminei. Minhas maquetes nunca foram excepcionais, meus desenhos não tinham perspectiva, não dissequei bicho, não queimei formiga com lente de aumento, não escrevi poemas, não roubei beijo, não levantei a mão quando a professora perguntou, meu Power Ranger nunca teve a cor mais legal, não era o primeiro a ser escolhido nos times de queimada e nem era o último a ser queimado. Minha mãe não colocou Bach para tocar ao lado da barriga antes de eu nascer, nem Mozart ao lado do berço. Bossa Nova eu só fui ouvir depois, e mesmo rock n’roll não desceu direto. O que eu quero deixar claro, se você acredita no que o Vinicius de Moraes chamou em uma elegia de a lenda dos destinos, é que o meu destino particularmente não tem muito de especial.
- Você tinha amigos quando era pequeno? Isso é crucial, importante. Mais do que queimar lesmas com sal, eu garanto.
- Um que usava óculos. Vinha pra escola toda manhã com os olhos sujos e a camisa manchada de geléia. Ainda assim, muito inteligente.
- Como se chamava?
- Se chama. Vegas.
- Eu gostava de um menino chamado Lucas. Era mais baixo do que eu, possuía um nariz atroz, mas sabia opinar sobre tudo que a gente falava. Vai ver esse gosto a gente tem em comum, Jorge. As meninas não olhavam muito pra ele, o que me fazia gostar mais ainda, sabe? Ele podia ser só meu em todos os planos, até os imaginários. Claro, eu não pensava nisso na época. Só pensava em me vestir de noiva e subir em um altar com o Lucas Caloni, dizendo diretamente no meu ouvido aquilo tudo que ninguém mais ouviria. As outras não sabiam o que estavam perdendo, gostando do Erick, de olhos azuis e uma pinta com formato de estrela no rosto.
- E você namorou o tal Lucas?
- Não. Hoje ele não deve nem se lembrar de mim. Mas o meu primeiro beijo foi com o Erick.
- Eu nunca sequei uma lesma, Laura.
- Nem eu, Jorge. Fazer o que? E também nenhum leão mordeu minha cabeça.
Jorge e Vegas conversando, pães de queijo em um prato sobre a cama desarrumada, copos de água intocados, ainda era possível distinguir nuances de cores em objetos esparsos do quarto, havia brilho sobre algumas imagens, entretanto a opacidade e o mono cromatismo predominavam e cresciam juntamente à mudança nas suas expressões, nos seus gestos, ainda eram Jorge e Vegas, mas agora eram também mais do que isso, eram dois números, personagem um e personagem dois, pertenciam a si e a uma nova atmosfera noir, composta de heróis problemáticos e mistérios compressores, eram a imagem de antes recortada em um molde de charutos e chapéus.Os pães de queijo, os lençóis revoltos, os passos da mãe de Jorge do lado de fora do quarto, o céu azul manchado de nuvens, nada mais fazia sentido e eles sabiam disso, se agitavam dentro do descoberto silêncio: a decisão havia sido simples e decisiva. Ambos sabiam disso, pois algo dentro de ambos fora disparado, enquanto estivessem infectos – e isso aconteceria enquanto estivessem diante de testemunha e juiz, respectivamente um e outro para um e para outro, os pães de queijo, os lençóis revoltos e a mãe de Jorge ligando o aspirador na sala de estar se despiriam da realidade primitiva que lhes havia sido atribuída para se tornarem insuspeita ficção, assistida sem devoção por Jorge e Vegas, suspensos como estavam nos fios de sua própria e quase impalpável realidade.
Cada uma mais difícil do que a anterior, as palavras trocadas tinham algo do espasmo de um peixe desprovido de água, algo deste abismo, desta fútil tentativa de reverter ou adiar a morte em uma simulação de vida, enquanto esta aproxima-se sorrateira e cínica entre os movimentos. Foi Jorge quem percebeu a presença da terceira convidada, e calou-se por completo como quem escancara a porta com um estrondo. Vegas ainda cambaleou um pouco mais sobre a corda bamba de uma só extremidade, mas afinal deixou-se cair no longo, porém fulminante, abismo sob os seus pés.
- Vamos lá, nós ainda temos algum tempo. - foram as laceradas, moídas, sufocadas palavras de Vegas ao se levantar. Jorge levantou-se também, de má vontade, e olhou para a janela, sentindo-se um homem gordo e suado dentro de um terno marrom, desvestiu instintivamente a camiseta, o seu corpo magro de moleque reluziu sob o olhar de Vegas, trazendo-o um pouco de volta. Vegas inspirou com alívio contido, andando o mais lentamente possível até o armário e trazendo de lá uma camiseta branca. Tabula Rasa, pensou, sem muita atenção. Depois, olhou os pães de queijo ao lado de que deitou a roupa. Sem dúvida iriam acabar endurecendo.
Provavelmente se o casal tivesse dado as mãos e seguido juntos pela rua, caminhando preferencialmente pelas sombras, desviando das raízes de árvores centenárias que manejavam erguer o concreto, se a voz debilitada de um avisasse ao ouvido ensurdecido do outro a presença de fezes de cães na rua, e dessa maneira continuassem até desaparecer da visão de Jorge, ele sabia que não encontraria paz durante o resto do dia. Não sabia bem apontar o porquê, mas algo de liberdade estalou no seu peito ao ver, pela janela em que se apoiava, poucos segundos antes de abrir o farol, a velha senhora largar o braço do seu companheiro e atravessar a rua o mais rápido que lhe permitiram as pernas arqueadas. Atônito, ele procurou segui-la, mas antes de atingir a terceira listra da faixa de pedestres foi quase atropelado por uma Kombi em alta velocidade. Ao desviar dele, o automóvel acionou uma buzina aguda, e esta pareceu servir de trilha sonora para a raiva que transfigurou o parcimonioso rosto de um senhor idoso em um grotesco e sanfonado símbolo do ultraje. O ônibus partiu antes que Jorge pudesse ver qual seria o próximo movimento da ópera, mas voltando o rosto para o lado vislumbrou a senhora que continuava o seu caminho impassível, e embora com a expressão indiferente, o movimento das ancas, dos ombros e mesmo dos seios flácidos, sob o ritmo apressado dos passos, ressoavam desde a rua e por todo o quarto como uma silenciosa gargalhada.
- Jorge. – Cabeça e ombros de mulher esgueiraram-se por uma fresta aberta na porta. – Vocês vão sair? Eu queria limpar o seu quarto.
Era a mãe de Jorge, mulher de quarenta e poucos anos, tinha os olhos redondos, maçãs do rosto salientes, pernas e quadris como uma taça, parecia ser mais feita de círculos do que de retas. Era uma bela mulher, entretanto, permitia-se pintar os cabelos de vermelho sem parecer vulgar, a palidez do rosto e as manchas sob os olhos eram as ondas circulares ao redor da pedra lançada na água. A pedra, até onde Vegas sabia, era o abandono do marido há alguns anos, e parecia não querer nunca afundar por completo. Agora trazia abraçada junto ao estômago um vaso de orquídeas brancas. Só ela sabia as economias que tinha de fazer alguns meses para ter espalhados pela casa um número desses vasos que lhe enchesse a alma, mas não reclamava. Vegas percebeu que o cacho de flores brancas misturava-se aos cabelos vermelhos da mulher, e percebeu que ela trazia sem saber um foco de cores para o quarto já parecido com uma fotografia de daguerreótipo. Jorge voltou-se de onde estava, apoiado na janela. Mais opaco do que nunca, encarou a mãe como se não a enxergasse, antes de responder.
- Já saímos, só vou me vestir. E pode deixar que a escrivaninha eu limpo, mãe.
A mulher assentiu antes de dar um passo para trás e fechar a porta, devolvendo ao quarto e a eles a escuridão anterior. Vegas, que desprendera-se um pouco das capas, das rosas e dos mistérios, olhou ainda por algum tempo o local onde a mulher estivera parada.
- Que vamos hacer? Nos vamos quedando solos! – Exclamou o professor quando o último aluno, com exceção de Vegas, saiu da classe. Apagava a lousa, fechava o caderno e enfiava seu material dentro da pasta com uma dinâmica ávida e mecanizada. Vegas sentou-se sobre uma mesa e ficou observando o professor, sentia um prazer muito tranqüilo em conversar com ele, ficar ao seu lado ou apenas ouvi-lo, e tinha a impressão de que o professor também lhe dirigia um apreço diferenciado, posto que dificilmente não se deixava estar na sala alguns minutos após bater o sinal e todos os outros estudantes saírem em debandada para o intervalo, a fim de serem os primeiros na fila da cantina ou ansiosos para darem continuidade cada qual à própria trama supérflua e excitante de banalidades, construída de intervalo em intervalo.
- Inspirado pelo texto de hoje, professor? – questionou Vegas, tendo que mover constantemente os olhos para acompanhar todos os movimentos do outro. Davi parou para encarar o aluno com um ar amigável, subindo as sobrancelhas cheias e fazendo crescer os olhos azuis muito claros.
- Juan Carlos Onneti...Carlos como você, olhe só, não havia reparado. É uma pena que metade desses cabeça oca não tenha entendido nada.
- Só metade é uma bondade do senhor. – corrigiu Vegas, mas não possuía malícia no tom de voz.
- Não é bondade. A outra metade entende sim, mas é pior, porque não se importa.
Foram interrompidos por movimentos e sons estranhos invadindo a classe. Era a figura de Laura, para Vegas sempre muito perturbadora, metida em calças claras e regata preta que evidenciavam suas proporções muito agradáveis. Mas além disso, o que mais o perturbava eram os olhos um pouco triangulares, os lábios pálidos e sempre sorridentes, perigosos como uma pistola carregada.
- O Onetti se parece um pouco com o Vegas, o que você acha? – perguntou dirigindo-se ao professor, enquanto caminhava cadenciadamente até a sua carteira e abria o estojo jeans com um movimento cortante.
- Não acho. – Replicou o professor calmamente. Laura tirou uma nota de dez amassada e suja de dentro do estojo, enfiou-a no bolso de trás da calça e depois encolheu os ombros.
- É uma pena. Devo ser só eu. – Jorge apareceu na porta, encostou no batente e ficou esperando Laura se aproximar. Acenou com um movimento de cabeça para o amigo e lançou duas palavras firmes de cumprimento ao professor. Não desgrudava os olhos da garota, que em resposta parecia zanzar ainda mais do que o necessário de um lado para o outro, catando coisas e colocando-as nos bolsos, antes de juntar-se a ele com um enorme sorriso de desculpas. Afastaram-se juntos.
- Uma verdadeira Susan Hayward essa Laura. – como Vegas não respondesse e ainda o olhasse com confusão, sentou-se na mesa de professor diante do aluno, onde ficou até o término do intervalo e o início da aula seguinte. É uma atriz famosa da década de 50 – explicou, ganhou um Oscar pelo filme Quero Viver!...
Espreitar o monstro que os espreitava.
Esse sem dúvida era o primeiro movimento, e a partir dele descobririam os seguintes, até terminar em uma faca enterrada no peito do monstro, nada antes e nada depois.
Jorge e Vegas saíram de casa quietos e seguiram quietos pelas veredas, dobrando esquinas e atravessando pequenas ruas, até chegarem na larga avenida em que o monstro vivia. Era o tempo todo uma avenida movimentada, barulhenta, uma passarela de pessoas agitadas para chegarem aos seus compromissos, às suas casas, e além disso, não era muito limpa, trazia ratos e baratas transitandp principalmente onde o lixo se acumulava, mas ninguém parava diante deles tempo o suficiente para sentir medo – embora fossem os mesmos ratos e baratas que os apavoravam em casa, nas cozinhas e nos quartos. Se ratos e baratas não diferiam muito entre si, o que mudava, realmente, é o lugar em que decidiam se mostrar - na avenida para onde se dirigiam Jorge e Vegas eles caminhavam entre os pés dos transeuntes e residiam nas pilhas de sujeira sem que ninguém lhes desse uma atenção especial. O que pode ser, calculou Jorge, uma explicação plausível para o descaso sobre a presença execrável do monstro, no fim, não muito mais do que a mutação de um rato, maior e mais refinado do que o seu antecessor.
Ninguém o notava, exceto Jorge e Vegas, que faziam alguns dias antes o seu natural caminho para o colégio e falavam sobre cinema, namoradas, geometria analítica, o rosto feio e as pernas bonitas da professora Kátia, quando, por falar em pernas, notaram um homem grotesco olhando as pernas das meninas e levantando suas saias quando passavam distraídas, estendendo o pé para fazer cair senhores de idade e roubando a carteira e os cigarros dos bolsos dos homens, tudo isso sem que ninguém suspeitasse, apertado o estranho corpo em roupas respeitáveis e apressado e importante o passo que adotava para se deslocar entre uma maldade e outra. Dia após dia, as maldades foram ficando piores, enquanto o esquecimento de Jorge e Vegas com relação ao monstro, mais raros. No dia seguinte ao primeiro encontro com o monstro, surpreenderam-se com sua presença, trazendo a lembrança do dia anterior como algo longínquo e difícil. No terceiro encontro, após se depararem com o monstro, carregaram-no consigo em pensamento todo o caminho até a escola e no quarto, durante todo o resto do dia. Foi no quinto dia que, Jorge e Vegas, no momento em que se encontraram para caminhar até o colégio, não trocaram nenhuma palavra e se entreolharam rapidamente, com o esforço de não deixar transparecer pelo olhar qualquer pensamento que fosse. Ambos sabiam que os pensamentos eram demasiadamente terríveis. Havia neles um número indefinível de maldades, pessoas que viam suas faculdades mentais e físicas confundidas, outras oprimidas por obstáculos ilusórios de opressão..., e por trás de tudo isso, sempre rosto feio e mesquinho do monstro. Se havia alguma vantagem em tanta ação deliberada, era que Jorge e Vegas observavam o monstro sem que ele desconfiasse. Não sabiam ainda o que fazer, espreitavam o monstro que os espreitava. Depois disso, e até o dia seguinte, não havia nada.
Laura chegou em casa poucos minutos antes de Jorge. Os dois haviam se separado no caminho, o garoto delicadamente a acompanhara até um ponto a três quarteirões de sua casa, quando a menina, despistando-o com a desculpa de ter que parar no supermercado para comprar algumas batatas e brócolis para o jantar daquela noite, fez com que ele voltasse. Parada na escadaria diante do mercado, ela o observou caminhar de costas, no início apreensiva de que ele voltasse o rosto em sua direção, mas depois relaxando e se sentando nos últimos degraus. Era uma longa subida antes que Jorge tivesse que dobrar a esquina, e Laura gostava de observá-lo enquanto caminhava. Tinha a impressão de que pessoas em movimento eram menos infelizes do que pessoas paradas. Não porque houvesse distinção na presença dos pensamentos em qualquer um dos casos, mas porque os pensamentos de alguém em movimento tendiam ser mais ativos, e dessa forma, não se deixavam nunca afundar no grosso lodo da melancolia. Para isso havia bancos de praças, pensou Laura, bobamente. Quando voltou a encarar as costas de Jorge, ele já se encontrava muito perto da esquina. Eram costas muito queridas, os cabelos castanho escuro eram muito querido, os braços um pouco fortes e bastante brancos, lhe eram muito queridos. Jorge dobrou a esquina e tirou todo seu corpo querido de sob a visão de Laura. Com um suspiro, ela se levantou de onde estava e voltou a caminhar em direção a sua própria casa.

