quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Entrevista - parte II

- Continuou rápido, estou surpreso. Não vamos perder tempo, que pode haver avanço. Já estou “esfregando a mão contra o tecido áspero da calça”, não é isso? Ação é bom, precisamos de mais ação, você consegue. Sei lá, podia entrar uma mulher aqui agora. É, como essa, de vestido vermelho, corpo violão, minha nossa, a sua imaginação é uma benção. Oi, meu bem. Senta aqui no meu colo, vai. Adoro mulher bonita sentada no meu colo, muito obrigada. Está bem que agora ficamos estranhos, nós dois existindo e essa amiga estando mais para adereço do que outra coisa. Mas eu entendo, você ainda está engatinhando sobre a história, esboçando. Não! Não faz isso! Não imagina ela como um rabisco cheio de traços à grafite. Assim você me mata... Pronto. Temos eu, você, uma pessoa. Você sabe que eventualmente vai ter que acabar se retirando, não é? É assim que funciona a história que você queria fazer. Ia começar toda comigo “sentado em uma cadeira de praia, a pele dourada pelo sol como ficam douradas as peles dos jovens”, não é? “E as peles dos mais velhos apenas escurecidas, tristemente enegrecidas, frutas oxidadas, abertas. Esquecidas escancaradas tempo a fora.” Você tinha várias imagens para mim antes de se recolher em posição fetal e ficar morrendo de medo de escrever. Agora eu estou em uma sala inexistente, com uma boneca no colo que mais parece uma femme fatale de filme dos anos 40 virando esse olhar incompetente de groupie para cima de mim. Desse jeito fica difícil, daqui a pouco finito dessa história alternativa.

Entrevista

- Está muito nervosa, muito estressada mesmo. Está bitolada. Quer me escrever? Não vai ser tão difícil, olha. Roupa toda branca, meio magrelo, famosíssimo. Ainda acho que era mais fácil falar meu nome, mas quer me escrever e se falar as pessoas vão usar seus próprios desenhos, vaidosa, se morde. – Ele deu risada da cadeira em que estava sentado, era o escárnio em pessoa. – O que mais? Eu fumo. – Deu mais risada. – Tenho pai e mãe. Tenho avô vivo e avô defunto: acho importante o negócio de família em entrevistas assim.
Não estava esperando uma entrevista.
- Mas querida, é você que não consegue se decidir sobre o que eu vou fazer. Me deixou aqui plantado, com todo o carinho, faço uma entrevista. Aliás, você podia começar tirando esses fones de ouvido, uma falta de educação. Não faz nada direito e ainda se pergunta por que nada sai direito. Não me interessa se é carta de Vinicius de Moraes para o Tom Jobim em voz alta, uma nostalgia só, e se você tem lembranças em relação a essa carta. Você quer me escrever, não se escrever. Eu acho. Pronto, viu? E senta direito. Eu posso não sentar direito, não tenho nada com isso. Assim que eu gosto, agora vamos lá.
-Relaxa, querida, eu já disse. Vai ser fácil: eu existo. Mas começa você então e a gente conversa, viu, a cena já mudou. É um bar e ainda se pode fumar em bar. – Acende um cigarro distraidamente, parece ainda mais à vontade consigo mesmo após acender o cigarro, como se a nicotina e o benzopireno fossem para dentro junto com as idéias e depois saíssem todos, substâncias e palavras na forma de fumaça. Sorriu como se o sorriso também fosse feito de fumaça. – Me conta, me confessa. Fala das suas tristezas, fala da imensa mediocridade que te aflige, fala que está sendo esmagada pelo cotidiano, e que não sabe, meu bem, não sabe o que vai ser de você depois de tanto sonho perdido, sonhar já soa a hipocrisia, eu sei. Sei, consegui tudo que eu queria, é mesmo, mas aí passei a querer outras coisas. – Riu. – Uma casa no campo para compor muitos rocks rurais, uma motocicleta, queria ter poderes mágicos! Taí algo que eu sempre quis, mas nunca tive. Poderes mágicos e as feras para combater, sabe, sair correndo, ser herói no sentido mais profundo, mais ingênuo, mais trovadoresco da palavra. Pegar no colo mesmo, gritar, jogar para o lado, uma bagunça. Também nunca tive feras do tamanho dos meus sonhos... Fera quando a gente cresce vira vírus. Mas o que você ia falar mesmo? Meu mundo caiu, algo assim. Você gostava de Vinicius, de Tom Jobim, gostava desses caras que merecem ser gostados até hoje, mas de repente quem mudou o gostar foi você, fica ouvindo e amargando, feito essas menininhas bobas cheias de lágrimas nos olhos por achar uma flor esmagada entre as páginas dos livros. É, eu também gostava desses caras. Gostava no passado, como eu digo nas entrevistas: são um inspiração, é. Com certeza, uma inspiração, foi com ele que eu comecei isso, com o outro passei a prestar atenção naquilo, com certeza, e falo com o maior carinho que eu amei tanto eles até me tornar um igual, e é bem mais difícil de se amar quando se é um igual. Será que não é isso que te aflige, meu bem? Chegou no estágio em que já devia ter deixado de amar daquele jeito, mas o jeito em que se encontra não é o suficiente. Voltamos para o sofá, então, levanta da mesa do bar, coloca uns amendoins no bolso, e rumo à sala etérea.
(continua, talvez)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

heróis

O sono foi deixando de vir, deixando de vir, deixando de vir. Há algo de tranqüilo em saber que há noite lá fora, em saber tudo escuro, extático, e em saber todas as coisas nem escuras nem extáticas ao longo da noite causando um alívio ainda maior. Certos acontecimentos só podem suceder à noite... Bolos de caixa, bebidas, até uma conversa política surgida não sei bem de onde no meio da orgia glicêmica-alcoólica realizada por nós durante madrugadas multiplicando-se em muitas casas cercadas de muito mais casas, quietas em contraste. E essas noites se multiplicam dia após outro. Pois pelo menos os meus dias começam sempre iguais: ou quase sempre, com uma leve alteração na composição dos carboidratos; uma fruta, um iogurte e duas torradas ou uma fatia de pão ou biscoitinhos maisena. Mas a noite é cuspida sempre de uma boca diferente, e aí vai se desenrolando em músicas, em lembranças, um horrorzinho dos planos, afinal antes da apoteose virão a fruta, o iogurte, os biscoitinhos maisena novamente... Mas deve haver dias que não começam iguais; Deve haver dias que começam no centro da noite, e acordam para a luz antes que a luz acorde para eles, e eu não digo que sejam dias felizes ou que pertençam a pessoas felizes, mas sabê-los fora da minha janela, todos esses sóis solitários e desesperados, não há nada maior.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Woody

Sala de colégio, algumas mesas e cadeiras de madeira, a confusão comum de um dia começando, os minutos antes da aula. Estão presentes amigos do cursinho e do ensino médio, sinto-me um pouco desconfortável. Anunciam alguém especial, entra Woody Allen mais jovem na sala, vai dar uma palestra. Não lembro sobre o que ele fala, mas não é sobre os filmes. Acho que discorre sobre profissões, sobre a sua filosofia de vida ou mesmo sobre a língua inglesa, é difícil distinguir e eu estou demasiadamente encantada com sua presença. A palestra termina rápido. Uma amiga vem até mim e diz, você não gosta dele? Vai até lá, então. Eu corro antes que ele alcance a porta. You have to make more movies, esboço, sabendo que a idéia é estúpida, já que ele não havia de forma alguma parado de fazer filmes, além disso, uso um inglês rudimentar, mas precisava tentar algo. I watch like two of your movies per week, I love them, mostly the old ones; you got make do the old ones again. Ele ri, levantando as sobrancelhas. Two? Well, that’s something. You know, you may be misinterpreted saying things like these. Então ele me abraça e diz. Keep watching them, tough. And I’ll keep in touch. Fico maravilhada, mas minhas amigas me esperam de braços cruzados no fundo da sala. Sua idiota, elas dizem, ele é um velho nojento. O sinal toca e como no jardim de infância, é a hora do banho. Sou pega de surpresa, não sabia dessa regra, mas todos saem com pressa da sala, acabo ficando sozinha com a professora. Você me ajuda a limpar a sala, ela decide, e eu digo, claro que não, vou tomar banho como os outros. Ela diz, mas você nem sabia do banho, enquanto eu nego veementemente. Ela me entrega um copo de água, uma calcinha e um sutiã. Eu dou um gole da água e ela grita: sabia! Se soubesse do banho, teria trazido suas próprias coisas. Eu digo, eu tenho minhas próprias coisas, mas quero essas também. Além do mais, não vou trocar meu sutiã, ele é sexy. A professora me encara chocada, eu saio na direção do banho, mas acabo desviando o trajeto até a porta. Sem saber bem para onde ir, paro em uma doceria que vendia bombons e brinquedos antigos. Devo ter uns vinte reais no bolso, então peço um bombom. O dono da doceria me entrega um e pergunta se está bom. Respondo afirmativamente, então ele me diz que o pequeno bombom custa oito reais. Me explica que se recusa a baixar o preço do que considera arte.

O pessegueiro

Uma árvore de pêssegos, eu acho que nunca vi uma árvore de pêssegos, mas havia uma quando passou correndo por debaixo dos galhos e eu soube que ele nunca mais poderia andar depois que a menina da cadeira de rodas, muito linda e talentosa, parecia uma Billie Holiday surgindo do corredor, disse que uma vez embaixo da árvore de pêssegos ela nunca mais pôde andar. Ele cambaleou um pouco para um lado e outro, então eu tive certeza, gritei e coloquei a mão sobre o estômago, não sabia como era sentir uma dor assim enquanto ele caía no chão e a mãe corria para socorrê-lo. Era uma dor de não acreditar, uma dor de por alguns segundos, e os pêssegos tão bonitos, rosados e amarelos, não conseguia deixar de achá-los bonitos, como se a maldição não fosse culpada de si, apenas existisse. Corri até ele também, o segurei, nada espantava a mãe que já saía para buscar ajuda, eu fico com ele enquanto isso, disse a ela e ela sorriu para si como se fosse comentar na mesa de jantar que eu era uma boa menina. Eu sorri de volta, deitei ao lado dele no chão enquanto era tomado de delírios. Milhares de delírios, não era mais si mesmo, murmurava, sofria, se contorcia, e eu o abraçava muito forte, foi se acalmando, me abraçando de volta, embora talvez não fosse a mim que abraçasse, talvez nem de fato abraçasse, mas se acalmava e era isso que me importava. Não sei em que momento recuperou a consciência ou se precisou de remédios para isso, só sei que já conversávamos, até ríamos, e eu tentava colocá-lo em uma cadeira de rodas quando um rapaz entrou pela porta e nos encarou com uma surpresa divertida. Eu disse, não, não é isso, é que seu irmão não está bem, e ele deu uma risada baixa e disse, claro, claro. Então seus amigos entraram depois dele, entre eles eu conhecia alguns, mas não consegui dar atenção a ninguém, apenas os notei, sem dar atenção.