(1)Havia um gato castanho lindo em frente a uma loja de malhas. Ele miou quando entrei, miei de volta disfarçada em um oi. Em frente ao espelho fiquei infeliz com os olhos muito vermelhos de cloro, entao ele se levantou e veio se esfregar na minha perna. Sentou logo ao lado, e após coçar atrás da orelha fixou os olhos além, em um ponto que não sei o que era. Finalmente foi se sentar de novo na porta e eu, que não me sentia sozinha, passei a me sentir.
(2)Gregorovius dizendo, argila é sombra concreta. Sombras dançam na página do livro. Japonesinha atrás de mim procurava o casaco esquecido no sofá.
(3) Se eu pudesse, te daria os reflexos de todas as poças formadas pela chuva, a mulher gritando que era o fim do mundo, a loja de embrulhos, o lixo empilhado no canto da rua. Se eu pudesse escolher um presente, escolhia os homens escondidos nas guaritas, os de boné virado para trás e os que desejam tenha um bom dia, daria o meu tédio diante de qualquer outro homem e dos jogos de sedução, também te daria as padarias e as lojas de doces, os sorvetes, as tardes na piscina, principalmente a hora do impulso contra a parede em direção a mais uma chegada. Os cobertores, os livros, as tramas antigas despidas de nomes e detalhes, liquefeitas pela memória como se passadas em um coador. Se eu pudesse, daria a melancolia após o almoço, a vivacidade da madrugada, o som das rodas de motocicleta contra o asfalto molhado, o olhar das pessoas dentro dos ônibus, os olhos de lanterna sobre o insulfilme.
(4) Hoje estoy libre, nem sei a quanto tempo engulo aquela merda de comprimido e me levanto ao som de buzina, sino, grito. Juro que estou feliz, se quiser mesmo ter ido embora, que se dane. Tem a encaixe e as pastas com divisória e capa florida, o teatro no final de semana e o restaurante da sexta feira, acha o que? Eu aguento sim, a culpa é sua o samba é meu. Aguento sim quando ela explodiu junto com o avião e ficou toda queimada, é só que os desafetos não deviam sumir no mundo antes de sumirem na gente. Fico agora nas ruas pensando nela sem procurá-la, sei mesmo que não ia achar, tem gente que quando coloca o pé na estrada é pra nunca mais, nem por acaso. Assim feito você, ou esse homem ao meu lado, de terno cheirando a fritura e a cerveja. O mundo não para, a responsabilidade é minha, a culpa é sua, mas mesmo assim você podia ficar aqui comigo, just a little longer.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Quando o viu pela primeira vez, estava sentado adiante em um dos sofás do bar de um hotel em Serra Negra. O senhor lançava olhares de breve impaciência para um casal que discutia onde ficava localizada a Capela Sistina. A esposa afirmava veementemente ser em Madrid, enquanto o homem sustentava estar na Itália. Mariana observava desinteressada a discussão, achando graça apenas na angústia crescente do solitário homem taciturno. Era um daqueles tipos que aparecem geralmente em aeroportos ou hotéis, com quem se convive apenas um breve espaço de tempo, suficiente para fazer surgir uma pontada de apreensão, mas não longo o bastante para que se concretizasse um medo. Apesar de tudo, gostou dele e daquela cintura extraordinariamente fina apertada por um cinto marrom, da camisa pólo, os cabelos brancos bem arrumados e até mesmo das manchas arroxeadas sob os pequenos olhos castanhos.
- Vaticano. – Ele finalmente disse baixo e sem encarar o casal nos olhos, fazendo um trejeito com a cabeça. O que poderia parecer excentricidade, apareceu diante dos olhos de Mariana como uma espécie trabalhada de timidez.
- Boa noite. – disse Mariana ao se levantar, sorrindo com o carinho recém despertado. Levantou os olhos surpresos, como se esses fossem novos olhos surgidos dos antigos, e foi esse olhar que transformou a simpátia de Mariana em reservada admiração.
- Vaticano. – Ele finalmente disse baixo e sem encarar o casal nos olhos, fazendo um trejeito com a cabeça. O que poderia parecer excentricidade, apareceu diante dos olhos de Mariana como uma espécie trabalhada de timidez.
- Boa noite. – disse Mariana ao se levantar, sorrindo com o carinho recém despertado. Levantou os olhos surpresos, como se esses fossem novos olhos surgidos dos antigos, e foi esse olhar que transformou a simpátia de Mariana em reservada admiração.
trecho
É o seguinte. - disse, levantando-se da cama e indo em direção ao menino também jovem que mexia distraidamente no computador. Ele a olhou apenas interessado. - Tem algumas coisas que ficam na minha cabeça. - Trancou os lábios, não gostava quando falava sem coragem e as declaraçoes se tornavam introduções absurdas e pretensiosas. - A expressão do rapaz aos poucos ia sendo fisgada para cima, ele parecia achar graça. - Não, sério. Olha, agora é muito normal nós dois aqui, certo? Parece muito certo, mas um dia não vai ser assim. Um dia você vai ser tudo que poderia ser, e mais algumas coisas que a gente bão imaginava, e vai ter algumas pomadas que hoje não conhece na sua necessaire, talvez alguns quilos a mais, uma profissão talvez não tão lisonjeira, ou melhor, você vai estar tão mergulhado nela que nem vai se lembrar que ela te define como de alguma forma está agora te definindo aqui na minha cabeça. E, o que pode parecer meio absurdo agora, não logica, mas praticamente, nós vamos ter deixado de nos ver faz tanto tempo que eu serei apenas um pontinho do seu passado, bem menos definidor do que sua profissão, é claro, e nossa relação toda vai ser diferente. Quer dizer, você vai lembrar da nossa relação agora e ela vai se configurar de forma totalmente diferente, não vai entender como ficamos juntos por tanto tempo e como você aguentou e eu aguentei algumas coisas que agora é meio difícil de pensar como não aguentaríamos. Entende? O que me deixa meio lunática é estar aqui, nesse quarto com você agora, lendo um livro fantástico na sua cama e você no computador e sentir essa traição do futuro por dentro não me deixando em paz.
Sonho em campos de Jordão, primeiro dia de viagem
É anunciado pelo computador uma festa na frente do meu antigo colégio, Palmares, onde cursei o colegial. Fico sabendo por acaso, abrindo janelas aleatórias da internet. Resolvo aparecer. A primeira imagem é bastante chocante, uma multidão como bloco de carnaval está na porta do Palmares, são rostos conhecidos e desconhecidos, entrelaçados como se nada fosse mais natural. Não consigo me aproximar de ninguém, vislumbro constantemente o rosto da Barbara, mas também não consigo me aproximar dela. A angústia vai me deixando nervosa, com o meu celular ligo para a Lea, amiga desde os tempos do Rio Branco, que me chama de tonta e diz que eu deveria ter ido para Alphaville em uma reuniãozinha que estava havendo lá e para a qual havia me convidade. Agradeço, mas apesar de tentada, sei que estou muito longe e muito envolvida na festa do Palmares para poder deixar o local. Ligo então para o meu pai, dizendo que está tudo uma confusão, que não gosto de ficar lá. Ele vai até onde acontece a festa com um maço de papéis, senta debaixo de uma árvore e diz que para me levar embora eu vou ter que ajudá-lo a organizar algumas informações do seu trabalho. Dando uma olhada nos papéis vejo que o que ele me pede só o prejudicará, tanto quanto não quero fazer nada mesmo, é muito trabalhoso e levaria muito tempo, coisa da qual sentia não dispor. Digo isso a ele e ele concorda comigo, logo em seguida prestando atenção na Pilar, minha amiga do Palmares, que, aparecendo com dois cabides cheios de blusas e lingeries explica como foi o processo de modelagem em que entrou. Com o jeans que eles queriam anunciar, decidi usar um fio-dental, mas eles não tinham nenhum na coleção e o que me conseguiram era barato, explica e meu pai acha graça. Me afasto e sei que pouco depois ele foi embora. Continuo na festa, penso ainda na Barbara, que não apareceu mais desde então. Isso deixa de importar quando encontro com Rodrigo Guedes, Guilherme Reis e Tiago (?), nos sentamos em um restaurante indiano e ficamos conversando em uma cena parecidissima com uma cena de Ciranda de Pedra, mais pelas conversas do que pelo ambiente em si. Uma música indiana não para de tocar, até que um deles diz que a festa mudará de local e todos temos que pegar um avião. Concordo imediatamente, mas me perco deles quando entro no avião. O piloto é um garoto da festa, ele tenta decolar partindo de uma rua de asfalto. O espaço não é suficiente e o avião se torce inteiro na tentativa afobada de subir para ultrapassar uma loja servindo de obstáculo em muito em pouco tempo. Caímos. Sei que muita gente morreu, fico me perguntando quem teria, mas não lembro quais pessoas estavam na festa e era impossível identificar todos sobreviventes. Me pergunto se a Barbara ainda estará viva. Um rapaz abre um buraco no teto do avião em frangalhos e pula para fora dele. Imediatamente é alvejado de balas e cai morto, um clima de pânico se instala. Saímos atrás dele mesmo assim, sentindo que nada seria pior que permanecer no avião. Diversos homens armados e de uniforme lembrando a polícia estão do lado de fora, apontando suas armas para a gente. Demoramos um pouco até entender que o que eles querem evitar é que a notícia da queda do avião se espalhe - para isso, é preciso exterminar quem estava dentro dele. Em grupos ou sozinhos, todos tentamos fugir, encontro e desencontro várias pessoas do Palmares no meio tempo. Mas sempre acabamos sendo cercados, e meus amigos geralmente caíam baleados ou então eram acertados por uma dose absurda de uma substância que age no cérebro, os deixando completamente loucos. Percebo que se me fingir de louca, pouparão minha vida, ainda tendo a chance de preservar a sanidade. Uma mulher-guarda desconfia de mim, e, indo até um quiosque em que abatem pessoas, me dá um problema matemático de alta dificuldade para eu resolver durante o caminho - descubro que as pessoas loucas se tornam extremamente habilidosas em exercícios de lógica. Se eu não resolvê-lo, me matarão assim que eu chegar lá. Não resolvo e ela me entrega para um dos responsáveis do quiosque, para que ele atire em mim. Quando ele se volta em minha direção, vejo o rosto do Luís, um antigo amigo da Rio Branco que não vejo desde que saí da oitava série. Com ele tive uma relação de amor e ódio, o que, como é sabido, geralmente é apenas uma relação de amor. Acho que nossos desentendimentos o ajudarão a atirar em mim, e sofro por isso, já que lembro também que gostei dele como gostei de pouquissimas pessoas. Ele, para minha surpresa, também fica pálido. E me entrega um sapato. O sapato, me explica, pode servir de telefone, e com esse telefone poderia ligar para polícia. Tenho que correr antes que me descubram, apertando o sapato com as duas mãos digo que o amo, que sempre amei, e ele sorri parecendo triste. O sapato me liberta, com a sua posse todos acham que sou um dos carrascos. Pego uma carona com uma garota ruiva e ligo para a polícia, que logo vai para a área do avião e controla a situação. Ligo para Luis com o sapato para avisar , mas na sua sola aparece uma foto dele e as inscrições: esse homem foi morto por ajudar uma das vítimas. Acordo.
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