domingo, 24 de abril de 2011

Não adianta, não adianta nada, o castelo de cartas está a um passo de desmoronar.

domingo, 17 de abril de 2011

Rascunhos & Esboços - MarianaLaura

- Haja coragem!

Laura estava sozinha. Não sentia-se sozinha, a solidão não lhe era movediça como as saudades, não inflamava como as paixões, não, a solidão de Mariana era quieta como um objeto. Era quieta como todos os objetos. Era maciça como eles, imóvel, inexpressiva, infinitamente repetida ao longo do tempo até que tivesse perdido todo o significado, toda a emoção, Laura mesmo pairava sobre o seu próprio corpo como um fantasma de si em um sonho e assistia aos seus cabelos loiros volumosos emoldurando um rosto que era um objeto. Que não sofria. E ainda assim, pressentia ela, aquela não era a liberdade.

-

Proporções muito simétricas e LPS espalhados pelas paredes. Um curso sobre meteoros, tal qual havia lido em um livro do Cortázar, um cabide e um corpo de mulher, uma máquina fotográfica quebrada, uma caixa de presentes vazia, um papel higiênico sobre a mesa de quando ela havia se resfriado, os rostos desenhados nos LPS, as músicas gravadas no mp3, todas as folhas, as folhas, as folhas que ela não tinha coragem de selecionar para o lixo, um pouco temendo as traças, um pouco temendo o trabalho, um pouco temendo as lembranças, pois sabia que seu nariz, seu olhos, sua orelha deviam estar desenhados em algumas daquelas folhas. O móbile! O móbile de rosa de fita, ganhado em um aniversário dentro de um saco de pão juntamente a uma embalagem com bombons de limão, eram horríveis os bombons, embora fosse sempre bom ganhar um docinho, ganhar um agrado, por que será que ela tinha ganho aquilo? E mais ao lado o armário com toda sua monstruosidade e toda sua ostentação, os vestidinhos coloridos, brilhantes, longos, curtos, sóbrios ou desvairados, as meias, os sutiãs enfileirados como uma fila de soldados, solenes soldados sexuais, toda a responsabilidade dos sutiãs e seus rifles escondidos entre as fitinhas e os buquês de flores.

As flores eram muito importantes e estavam do lado de fora, penduradas nas árvores. Ela se lembrava das flores, que parecem ser mais coloridas que o resto do mundo, muito embora sejam tão coloridas quanto o resto do mundo, talvez haja algo dentro da imprevisibilidade nas cores de uma flor, como há em um papel celofane ou em um sorvete de massa, mas diferentemente do que aconteceria com ervilhas rugosas ou alfaces crespas.

O fantasma de Mariana-Laura que pairava sobre o corpo de Mariana-Laura aos poucos foi se assustando com o redemoinho formado ao seu redor. Os próprios cabelos loiros iam se inflando para cima como se houvesse uma saída de ar quente exatamente sob os pés de Mariana-Laura, e o seu rosto objeto também começava a sorrir.

_

Por que você não vai se danar, Jorge, seu folgado.

Uma típica cena familiar.

Acontecia em um típico cenário familiar: havia uma cozinha, um calendário, um pano de prato pendurado, além disso havia uma esposa amarga, um homem endurecido, mas a cozinha não era nem de um nem de outro, e tampouco eles eram marido e mulher, já que então cada qual somava com alguma dificuldade dezesseis anos, moravam separado junto com os seus pais. Que não brigavam na cozinha. Na realidade, não brigavam muito. O pai de Mariana possuía oculozinhos simpáticos sobre o rosto e embora tivesse que conviver com a eventual urge de estrangular a esposa ou espetá-la com um canivete até vê-la morta, no geral era um homem muito pacifista, e nos dias que não possuía paciência alguma, afetava-a como ninguém. E os pais de Jorge às vezes brigavam. Mas era mais por causa da seleção de frutas na geladeira ou o tipo de refrigerante comprado ou as pessoas convidadas para o jantar do que outras coisas. E um só mandava o outro se danar em casos muito sérios. Evitando, também, dar muita ênfase ao insulto que era para ao causar polêmica.

sexta-feira, 25 de março de 2011

"você não quer cantar, você não quer dançar, você não quer jogar voleibol, você quer escrever..."

Lygia F. Telles, sobre vocação

domingo, 20 de março de 2011

When in Rome I do as the Romans do


When in Spain, for reasons I don't explain explain
I remain enjoying a brew
Don't deplore
My fondness for fundator
You know how a fundator
Can lead to a few
And, baby, when in Rome I do as the Romans do

quinta-feira, 17 de março de 2011

BonjourBonsoir

Bertrand Morane foi o último homem que vigiei.

O Homem que Amava as Mulheres!

Gostei do título, em primeiro lugar. Como diria depois uma amante de Bertrand e responsável pela publicação do livro de memórias que ele escreve no decorrer do filme, é um título que combina com a narração da personagem, nos dá a impressão de alguém que não teme o fato de estar contando uma história, não teme que ela seja real e impetuosa. Uma das coisas legais nesse filme é ele possui narradores, e esse fato, que corre o risco de ser um artifício obsoleto, acaba casando muito bem com toda a trama. Um narrador aparece no início e no final, uma mulher, a tal amante editora de Bertrand, de quem já comentei - cúmplice dele por conhecer todas suas facetas, todos os seus casos e ser ela mesma um caso seu. O outro, no intermédio, é o próprio Bertrand Morane. Ao passo que ele conta suas aventuras com múltiplas mulheres, nos desmistifica da imagem de sedutor implacável, e com um pensamento objetivo, muitas vezes romântico e ingênuo, acaba envolvendo, seduzindo o próprio espectador. De fato, quase como membros de uma relação, deixamos de nos importar se o seu exagero com relação às mulheres é uma patologia, resultado de um trauma infantil, se é uma obsessão ou fruto de ilusões, não nos importamos pois acabamos nos juntando a ele ao observar as pernas das mulheres e os joelhos cobertos-descobertos sob as saias plissadas - e não importa se quem assiste ao filme é homem ou mulher, pois ele faz a observação, a comparação e mesmo o ato do amor parecerem a confecção e a contemplação de uma obra de arte, simultaneamente. Um acidente acaba tirando a voz de Bertrand do nosso alcance, e nos traz de volta a voz da editora como narradora. É aí que percebemos que esta voz, anteriormente

terça-feira, 8 de março de 2011


"Você foi um amante incrível. Tinha gosto de morangos."
Fanny & Alexander


A simétrica:

Holly: Look, I know what you think. And I don't blame you, I've always thrown out such a jazzy line. But really...except for Doc...and you...Jose is my first non-rat romance. Oh, not that he's my ideal of the absolute finito. He tells little lies and worries about what people think and he wants to be the President of Brazil. I mean it's such a useless thing for a grown man to want to be and takes about fifty baths a day. I think a man should smell...at least a little bit. No, he's too prim and cautious to be my absolute ideal. If I were free to choose from anybody alive...just snap my fingers and say "Come here, you!"...I wouldn't pick Jose. Nehru maybe...or Adlai Stevenson or Sidney Poiter or Leonard Bernstein...but I do love Jose. I honestly think I'd give up smoking if he asked me to!
Breakfast at Tiffany's

Magnolia

Thurston: It's a dangerous thing to confuse children with angels.
Donnie: (walks to TV) You want to know the common element for the entire group? Like he asked? I'll tell you the answer, because I had that one. I had that question. Ah, carbon. Carbon. In pencil lead, it's in the form of graphite. In coal, it's mixed up with other impurities. And in the diamond, it's in hard form. (in game show host voice) "Well, all we really wanted to know was the common element, Donnie, but thank you for all that unnecessary knowledge." (laughs) Kids. Heads so full of useless knowledge. Thank you, thank you... (begins to head for bathroom) And the book says, "We may be through with the past, but the past is not through with us!" And...no, it is not dangerous to confuse children with angels!

Mia Wallace

Mia: It was show about a team of female secret agents called "Fox Force Five."
Vincent (John Travolta): What?
Mia: "Fox Force Five." Fox, as in we're a bunch of foxy chicks. Force, as in we're a force to be reckoned with. Five, as in there's one..two ...three..four..five of us. There was a blonde one, Sommerset O'Neal from that show "Baton Rouge, she was the leader. A Japanese one, a black one, a French one and a brunette one, me. We all had special skills. Sommerset had a photographic memory, the Japanese fox was a kung fu master, the black girl was a demolition expert, the French fox' specialty was sex...
Vincent: What was your specialty?
Mia: Knives.

domingo, 6 de março de 2011

Conto de 16/10/2010

Mantinha as pernas cruzadas sobre a cama, riscava palavras rápidas em um caderninho enquanto José Carlos me expunha ao telefone os termos de uma renovação de contratos com alguns fornecedores da loja.
- Sei. Temos até as seis horas para decidir? Não, não sei o que fazer. Já disse que não sei o que fazer, porra, só faltava essa também. Mas esse cara está maluco? Ele acha que a gente é palhaço agora?
Maria Luisa não interrompia suas anotações, não levantava os olhos, estava constantemente entretida em colocar para trás os cabelos, alcançar algum objeto na mesa de cabeceira, esboçar imagens sem nexo em folhas de papel ou parágrafos cujo conteúdo me era desconhecido. É verdade, estava sempre ao redor, mas entre os altos e baixos da loja, o dinheiro cada vez mais penado, percebi uma gradativa retirada para suas próprias ocupações e quando estávamos juntos não raramente se alienava esquecendo completamente minha presença. Em um desses dias, entrava em casa com a cabeça latejando de cansaço quando a encontrei sentada no pequeno sofá vermelho de couro gasto. Estava pálida, os olhos ausentes não davam sinais de reconhecer minha chegada, ostentava a mandíbula um pouco frouxa, pernas descruzadas e nenhum vestígio de objetos com os quais poderia estar se ocupando até aquele momento, nenhum livro, nenhum jornal, o telefone celular jogado na mesa minúscula da sala exatamente na posição que estava no momento em que eu saíra do apartamento, havia cinco horas. Não era mais possível, apertei os punhos, não a reconhecia, esfreguei a palma da mão contra a face exausta, mas afinal o que ia fazer da vida? Já não era hora de começar alguma coisa?
- Responda, Maria Luísa, já não está na hora?
Maria Luísa voltou o rosto em minha direção, os olhos um pouco arregalados como fazia ao prestar atenção em algo, percebi então que perscrutava meu rosto feito o de um estranho, sem espanto ou história. Enfim apertou as pálpebras uma vez e depois piscou rapidamente, como se acordasse de um sonho ou tentasse afastar uma imagem da cabeça. Levantou-se, foi até onde eu estava, parecia tentar falar, mas as palavras não lhe saiam e os lábios eram uma trêmula linha involuntariamente definida. Balançou a cabeça e franziu a testa em um pedido silencioso de desculpas antes de retirar-se para o quarto e fechar a porta com um baque seco. Nos dias seguintes, entretanto, começara novamente a se ocupar com pequenas coisas esparsas, chegando até a melhorar seu comportamento em relação a mim e efetuar alguns agrados, colocava os braços ao meu redor enquanto eu trabalhava no computador, estalava beijinhos no meu rosto, eventualmente lançava sorrisos em minha direção. Neste dia, enquanto falava com José Carlos ao telefone, a presença de Maria Luisa já me lembrava a presença vigorosa e arrebatadora da época em que nos conhecêramos, os seus braços pareciam multiplicados em dezenas conforme ela os estendia a fim de ocuparem infinitas funções. No momento em que desliguei o telefone, olhou-me pela primeira vez naquele dia, sustentando as sobrancelhas altas e um sorriso de lado.
- Bebês em conserva.
- Oi?
- Aparentemente é isso que os artistas estão fazendo hoje. – Balançou uma folha de jornal no meu nariz, embora não em tempo suficiente para que eu pudesse distinguir com clareza as imagens impressas.
- Do que você está falando? - Perguntei, apreensivo. – Estão manipulando fetos?
- Não! – Respondeu com um guincho agudo, dando um pulo ofendido na cama – Meu Deus, você acha que eu sou um monstro. Acredita mesmo que eu diria com tanta calma: bebês em conserva, Dr. Frankenstein? Isso eu deixo para os nossos amados da medicina, preste atenção, eu disse é isso que os artistas estão fazendo hoje. Os artistas. São apenas umas bonecas dessas de criança em potes de vidro cheios d’água, com direito até a cabeça desproporcional. – Sentei ao seu lado no colchão, pois enquanto falava com José Carlos me mantivera de pé caminhando de um lado para o outro no quarto. Tomei a página do jornal nas mãos e vi a fotografia referida por Maria Luisa, a indicação de um artista e o caderno em que era possível saber mais sobre a obra.
- Impressionante. – Comentei, por não ter muito que dizer. – Agora, sobre os “bebês em conserva” da medicina, você está falando das células-tronco? Porque se estiver...
- Não, seu bobo. – Respondeu, me encarando como se eu estivesse fazendo piada de algo sério. – Se eu estivesse falando sobre a medicina-monstro, certamente me referiria aos homúnculos presentes dentro do espermatozóide. E nem me venha com teorias céticas de padres italianos, tenho certeza de que já ouvi um chorar. Agora, sobre o que eu estou de fato falando, é um pouco impressionante mesmo.
- Os bebês em conserva? – Analisei novamente a boneca virada de cabeça para baixo no pote, inexpressiva, os olhinhos de um bebê que nunca chegou a abri-los, boiando com todo seu plástico no que deveria ser água. – É, bem. Se nós dermos uma olhada, na realidade ele deve estar falando sobre aborto, com certeza é um artista com alguma opinião forte contra o aborto.
- O que te leva a pensar que é contra? – Perguntou, inclinando o corpo sobre o meu, aproximando o rosto da figura e cobrindo minha própria visão.
- O desconforto que dá olhar para algo assim, acho. Você olha, pensa em uma criança morta e imediatamente sente aversão.
- Pois bem, eu senti foi aversão do artista. Um sensacionalista, isso que deveria ser. Pote de vidro, água e criança? Um pote de vidro e água, claro, e o útero, e a mãe, que se danem. Se são avessos à idéia, se tornam vidro e água, uma maldade sem tamanho. – Pisquei os olhos, franzindo um pouco a fronte.
- Não sabia que você era a favor do aborto, Maria Luísa. – Foi sua vez de piscar os olhos.
- Mas eu nunca disse que era.
O nome, Maria Luísa. Cada um que nos apresentava, e nos apresentaram ao todo cinco vezes no pátio da escola, a chamava de um modo diferente. Esta aqui é a Malu, Luisinha, Marie, Lulu, um de olhos apaixonados agravou a voz ao dizer: Luísa. Todas as vezes ela abria o mesmo sorriso, crescente em cumplicidade silenciosa comigo, ao que eu proferia um tímido e desajeitado muito prazer. Possuía na época cabelos muito escuros e curtos como os de um garoto contrastando com o rosto absolutamente feminino, estava sempre rodeada de várias pessoas, e como estudávamos em uma escola pequena, não raramente ouvia-se o seu riso sonoro abafando todos os outros risos e todas as outras vozes dentro do espaço bastante limitado. Portanto, não é de se espantar que, em um intervalo entre aulas, assustei-me ao vê-la caminhar curiosamente sozinha em minha direção, sentar ao meu lado no banco de metal e lançar-me um meio sorriso antes de morder o sanduíche de queijo em pão integral trazido de casa. Absolutamente pacífica, comia ao meu lado enquanto eu sentia ser mais provável sufocar e cair desmaiado tanto falasse ou não falasse qualquer coisa. Juntando toda a coragem que consegui encontrar, finalmente perguntei:
- Maria Luísa, não é? – Ela arregalou os olhos espantados ao ouvir alguém a chamando pelo nome completo, mas logo seu rosto assentou em um característico sorriso e ela disse:
- Muito prazer.
A partir daí, minhas lembranças relacionadas à Maria Luisa vão se amontoando em série sobre uma espiral vertiginosa, distinguir se subíamos ou descíamos ao longo dela era tanto impossível quanto irrelevante. De qualquer forma, a tenho na memória como se composta de um vitral em que os pequenos pedaços de vidro colorido brilham individualmente se trago de volta uma lembrança isolada, mas a menção aleatória de seu nome é uma imposição insuportável da imagem formada pela complexa composição de todos eles. Possuo guardado um par de sapatos de verniz, uma caminhada pelo centro da cidade, um beijo no seu ombro esquerdo nu e corado, uma mordida em um sanduíche de queijo, uma hospitalização por picada de aranha, três peças de quebra-cabeça encaixadas. Possuo trechos de conversas assaltados por breves obliterações alcoólicas, lembranças difusas de um tempo fundido em época, marcado cronologicamente apenas pelo início e pelos finais, um destes ocorrido, por acaso, na exata noite após a discussão sobre a imagem no jornal.
- Ele precisa esquecer esse negócio de faturamento por mês, eu explicava a José Carlos pelo celular. Não existe essa de faturamento por mês, balancear uma semana ruim com outra boa, desse jeito vão ficando intercalados comodismo, correria e você já viu, as metas mais interessantes nunca são cumpridas. No nosso negócio eu já disse, Zé, não tem jeito, é matar um leão por semana.
- Um leão por semana...- repetiu Maria Luísa, baixinho. Encarava-me de forma insistente já havia algum tempo, mas sua expressão inicialmente distraída endurecia a cada instante.
- A Mariana não faz nada. Falei quando nos encontramos: você não vai fazer as ligações? Mas se dependesse dela, não, não faria nada. Não sei qual é a sua mantendo essa garota, tem uma queda por ela, é isso? – Maria Luisa estendeu o braço e o pousou sobre a minha perna, firme. Fiz com a mão um sinal para que esperasse.
- Se você gosta da garota, a chame para jantar, para sair depois do expediente, o diabo, José Carlos, mas você não afunda um negócio por causa disso.
Maria Luisa aumentou a pressão sobre a minha perna, agora me mirava com mais urgência.
- Espera, Maria Luisa. Não. Não interessa. – Soltei uma risada. – Bom, isso pode interessar, mas ainda assim... – Para ela, foi a gota d’água. Com um tapa, acertou o meu rosto e o telefone, fazendo com que o contato violento entre meus dentes e a língua liberasse o metálico gosto de sangue na boca. Deixei cair no chão o celular e levando a mão até o lado atingido da face fitei-a como se tivesse enlouquecido. Maria Luísa engasgou com uma risada nervosa.
- Ah, Senhora Bovary, perdoe seu pobre Charles, ele sabe não poder competir com León, mas a ama como se pudesse. – Fiz menção de levantar, mas ela sentou em cima dos meus joelhos, tombando molemente o rosto no meu ombro. - Agora um Shakespeariano. – disse com a voz abafada, seu hálito aquecendo a malha do meu moletom. – Qual pode ser? Qual pode ser? Capaz de competir com José Carlos, eu mesma não poderia nunca... Um Shakespeariano poderia ser símbolo, deixe-me pensar em um. – Delineou um sorriso irônico. – Ou seríamos todos nós símbolos de Shakespeare, não o contrário?
- Maria Luisa, pare agora. – Ordenei, tentando esconder o tremor na minha própria voz. Ela pulou do meu colo com a agilidade de um animal selvagem.
- Que trai! A mãe de Hamlet! A grande canalha! E ainda uma tonta, porque traia o fantasma com um assassino e não sabia nem que traía e nem que era assassino. O problema é dela, acabou canalha mesmo assim. Fim, morreu, mas bem, quem não morre em Shakespeare acho que acaba pior ainda.
- Chega! – Segurei seus braços com força, a fim de imobilizá-la. – Preste atenção, olhe para mim, você não está raciocinando. Quer perder esse lugar? Você quer perder esse apartamento? Quer perder as suas roupas? Hem? É isso? É simples, eu paro de trabalhar imediatamente. Se você começar a fazer alguma coisa ou não se importar em perder absolutamente tudo, eu paro de trabalhar imediatamente. – O joelho de Maria Luisa falhou e eu tive que segurá-la com ainda mais força para evitar que caísse no chão. Aos poucos desci com ela até sentarmos no assoalho, a ausência absoluta retornara às suas feições como no dia em que eu a encontrara sentada na sala, mas antes que eu pudesse ameaçar dizer algo, explodiu no choro mais compulsivo e desesperado que eu já havia visto.
Supondo que eu pudesse escolher as cores dos ladrilhos compondo o vitral espiralado da minha memória, aquele destinado ao segundo fim que enfrentei com Maria Luísa seria indubitavelmente vermelho. A festa era extravagante, recepcionada por gente extravagante. O salão, rodeado por janelas cobertas com grossas cortinas vermelhas que praticamente tomavam todo o caminho entre o teto e o chão, se tornava um refúgio perfeito para os convidados contentes em substituir a noite que abarcava dentro de sua escuridão todos os hedonismos, as misérias, os terrores e as inconsciências por aquela que sob a impecável luz de holofotes os trazia alegres canapés e antigas piadas. Estava acostumado com eventos assim, já não os julgava – e se o fizesse, era um julgamento tão cansado que não trazia mais consigo nenhum sentimento especial de aprovação ou revolta. Prontamente à minha chegada escolhia o sofá em que ficaria durante toda a noite, de preferência ao lado do bar, depois passava o tempo observando as pessoas dançarem cada vez mais livremente, rirem cada vez mais alto enquanto o som também em constante ascensão de volume ia fazendo com que as vozes já desnecessárias se tornassem também indistintas. Era quase agradável dar pequenos goles na minha própria bebida e ir sentindo o entorpecimento inverso que ela me causava. A cada hora a extravagância externa aumentava, mas meus ouvidos transformavam em um pacífico zumbido uniforme todos os sons que chegassem neles. As cores, envolvendo ou não pessoas em si, cruzavam-se diante de mim como na cena de apresentação do filme Cidade dos Sonhos, mas sua multiplicidade apenas potencializava minha crescente indiferença. Naquela noite, entretanto, eu estava ainda a algumas horas deste estado quando Maria Luísa, usando vermelho escuro dos brincos ao vestido, surgiu diante de mim e sentou-se no sofá ao lado. Seu rosto, sete anos mais velho, era também sete anos mais calmo e menos vibrante. Tons de palidez haviam sido habilmente encobertos por maquiagem cuidadosa e um fácil sorriso, ao menos esse já conhecido meu. Senti as palmas das mãos esfriarem.
- Então, esta é a sua solução para noites assim? – Indicou meu copo com a cabeça, levantando uma sobrancelha com ironia divertida.
- Você não pode me julgar. – Respondi, corrigindo a rouquidão da voz com um pigarro. – Se freqüentasse noites como essa tanto quanto eu, teria também sua solução.
- Ora, como pode negar a boemia dos patês de camarão e de uma música tão revolucionária?
- Vou ser honesto com você, meu inglês moribundo não consegue captar o significado das letras, mas a melodia só me faz querer pegar em armas para apontá-las contra minha própria cabeça. – Fui surpreendido pela naturalidade com que já conseguia lhe falar. Maria Luísa riu um pouco, mexendo com a ponta dos dedos o cabelo bastante mais curto do que há sete anos, quando saíra do nosso apartamento para não retornar mais.
- Está velho. Acusou, rapidamente corrigindo com bom-humor:
– Estamos velhos. Vou ser honesta com você também. Venho muito a lugares assim. – Franzi o cenho.
- Não me diga. Trabalho ou lazer?
- A não ser que eu considerasse suicídio um lazer e me unisse a você. Trabalho. – Sorriu com um lado só da boca. – Esposa. Lá, aquele belo rapaz de camisa listrada azul, honrando com sobriedade a sua inteligência. – Apontou para um homem de estatura relativamente baixa postado em uma roda, derrubando inadvertidamente champanhe no chão ao dobrar-se para dar risada de algo que algum dos companheiros dissera. Já havia visto em uma revista seu rosto redondo e os incomuns óculos de aros grossos, era um conhecido artista plástico. Ao que eu conhecia, suas obras tendiam a ser mais espalhafatosas do que significativas.
- Lucas Caloni é seu marido? – Ela assentiu com a cabeça, parecendo divertida com a surpresa mal dissimulada no tom de voz que eu empregara.
- É. É bom viver com ele. Um excêntrico terrível, tem crises de mau humor como uma criança. Passo a maior parte do tempo cuidando dele, curando seus bloqueios criativos como quem coloca band-aid em uma ferida. Pensando bem, - Disse, como se uma idéia tivesse acabado de lhe atravessar a mente.– em vários aspectos ele se parece com uma criança. Curioso, já que não podemos ter filhos. De qualquer forma, não deixa de ser uma rotina agitada.
- O que você quer dizer com não ter filhos? – Questionei, o asseio em abordar o assunto sendo vencido pela curiosidade.
- O Lucas é estéril. – Respondeu, inexpressiva. Durante um curto momento nenhum de nós se moveu, momento que serviu para que eu fixasse para sempre na memória a estranha profundidade que me causava a retidão de seu olhar. Em seguida, ela ergueu as duas sobrancelhas, aparentando preocupação:
- Estou sendo indiscreta? A sua presença, - Fez um movimento com a mão direita no ar, como se espantasse um inseto em câmera lenta. – e além do mais eu nunca sei exatamente o que...
- De forma alguma. – Interrompi, para tranqüilizá-la. Acenou afirmativamente, deitando as costas no apoio da poltrona e deixando cair para trás a cabeça. Seus brincos vermelhos faiscaram ao encontrarem luz durante o trajeto. – Você não me disse qual era a sua solução. – Pontuei, para retomar o assunto e assistir ao sorriso que, como previsto, voltou animado ao seu rosto.
- É verdade. – Corrigiu a coluna e levantou o queixo. – Bem mais saudável do que o seu. Fecho os olhos, tento me concentrar no som de um saxofone nos anos 30, um saxofone absolutamente destruidor. Então mentalizo uma enorme pirâmide asteca e me imagino subindo sua escadaria de pedra incessantemente, sem nunca chegar ao topo. – Dei risada.
- Isso não é verdade! – Afirmei, e ela riu junto comigo.
- Tem toda razão. Me pegou na mentira. – Suspirou, fingindo decepção por ter sido descoberta. – Na realidade, não é necessário fechar os olhos.
- Por que pirâmides astecas?
- As egípcias estão muito longe, não seriam verossímeis. Além disso, os astecas tem uma visão bonita sobre a liberdade. - Encolheu os ombros.- Eu não tinha, então resolvi usar a deles. - Sorrimos tristemente e eu senti uma onda arrebatadora de carinho pela mulher à minha frente, uma vontade de pegá-la pela mão, de lhe beijar, trazê-la para casa uma noite, depois uma manhã e todas as seguintes. Engoli seco ao perceber que nenhum de nós sorria mais.
Maria Luísa levantou do sofá, abri a boca para pedir que ficasse mais um pouco, mas fui incapaz de dizer qualquer coisa.
- Vou deixar você aqui, para seus publicitários poderem comê-lo vivo. – Brincou, novamente tomada pela ironia divertida. – Fiquei feliz quando soube que a loja havia se tornado as lojas, e gente tão metida a besta fazia propaganda assim barato só por gostar de freqüentar, foi um bom trabalho.
Agradeci, sem deixar de notar que ela acompanhara de longe o acontecido. Maria Luísa virou de costas e se direcionou à roda de Lucas Caloni. Enquanto a observava se afastar, com o vermelho refletido por todos os objetos ao nosso redor dançando sobre sua pele, voltei a dar pequenos goles na minha bebida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Orquídea branca

- Olha, nenhum leão me mordeu a cabeça quando eu era pequeno. Não fiz nenhuma coleção até o final, nem de pedra, nem de fita, nem álbum de figurinha eu terminei. Minhas maquetes nunca foram excepcionais, meus desenhos não tinham perspectiva, não dissequei bicho, não queimei formiga com lente de aumento, não escrevi poemas, não roubei beijo, não levantei a mão quando a professora perguntou, meu Power Ranger nunca teve a cor mais legal, não era o primeiro a ser escolhido nos times de queimada e nem era o último a ser queimado. Minha mãe não colocou Bach para tocar ao lado da barriga antes de eu nascer, nem Mozart ao lado do berço. Bossa Nova eu só fui ouvir depois, e mesmo rock n’roll não desceu direto. O que eu quero deixar claro, se você acredita no que o Vinicius de Moraes chamou em uma elegia de a lenda dos destinos, é que o meu destino particularmente não tem muito de especial.
- Você tinha amigos quando era pequeno? Isso é crucial, importante. Mais do que queimar lesmas com sal, eu garanto.
- Um que usava óculos. Vinha pra escola toda manhã com os olhos sujos e a camisa manchada de geléia. Ainda assim, muito inteligente.
- Como se chamava?
- Se chama. Vegas.
- Eu gostava de um menino chamado Lucas. Era mais baixo do que eu, possuía um nariz atroz, mas sabia opinar sobre tudo que a gente falava. Vai ver esse gosto a gente tem em comum, Jorge. As meninas não olhavam muito pra ele, o que me fazia gostar mais ainda, sabe? Ele podia ser só meu em todos os planos, até os imaginários. Claro, eu não pensava nisso na época. Só pensava em me vestir de noiva e subir em um altar com o Lucas Caloni, dizendo diretamente no meu ouvido aquilo tudo que ninguém mais ouviria. As outras não sabiam o que estavam perdendo, gostando do Erick, de olhos azuis e uma pinta com formato de estrela no rosto.
- E você namorou o tal Lucas?
- Não. Hoje ele não deve nem se lembrar de mim. Mas o meu primeiro beijo foi com o Erick.
- Eu nunca sequei uma lesma, Laura.
- Nem eu, Jorge. Fazer o que? E também nenhum leão mordeu minha cabeça.
Jorge e Vegas conversando, pães de queijo em um prato sobre a cama desarrumada, copos de água intocados, ainda era possível distinguir nuances de cores em objetos esparsos do quarto, havia brilho sobre algumas imagens, entretanto a opacidade e o mono cromatismo predominavam e cresciam juntamente à mudança nas suas expressões, nos seus gestos, ainda eram Jorge e Vegas, mas agora eram também mais do que isso, eram dois números, personagem um e personagem dois, pertenciam a si e a uma nova atmosfera noir, composta de heróis problemáticos e mistérios compressores, eram a imagem de antes recortada em um molde de charutos e chapéus.Os pães de queijo, os lençóis revoltos, os passos da mãe de Jorge do lado de fora do quarto, o céu azul manchado de nuvens, nada mais fazia sentido e eles sabiam disso, se agitavam dentro do descoberto silêncio: a decisão havia sido simples e decisiva. Ambos sabiam disso, pois algo dentro de ambos fora disparado, enquanto estivessem infectos – e isso aconteceria enquanto estivessem diante de testemunha e juiz, respectivamente um e outro para um e para outro, os pães de queijo, os lençóis revoltos e a mãe de Jorge ligando o aspirador na sala de estar se despiriam da realidade primitiva que lhes havia sido atribuída para se tornarem insuspeita ficção, assistida sem devoção por Jorge e Vegas, suspensos como estavam nos fios de sua própria e quase impalpável realidade.
Cada uma mais difícil do que a anterior, as palavras trocadas tinham algo do espasmo de um peixe desprovido de água, algo deste abismo, desta fútil tentativa de reverter ou adiar a morte em uma simulação de vida, enquanto esta aproxima-se sorrateira e cínica entre os movimentos. Foi Jorge quem percebeu a presença da terceira convidada, e calou-se por completo como quem escancara a porta com um estrondo. Vegas ainda cambaleou um pouco mais sobre a corda bamba de uma só extremidade, mas afinal deixou-se cair no longo, porém fulminante, abismo sob os seus pés.
- Vamos lá, nós ainda temos algum tempo. - foram as laceradas, moídas, sufocadas palavras de Vegas ao se levantar. Jorge levantou-se também, de má vontade, e olhou para a janela, sentindo-se um homem gordo e suado dentro de um terno marrom, desvestiu instintivamente a camiseta, o seu corpo magro de moleque reluziu sob o olhar de Vegas, trazendo-o um pouco de volta. Vegas inspirou com alívio contido, andando o mais lentamente possível até o armário e trazendo de lá uma camiseta branca. Tabula Rasa, pensou, sem muita atenção. Depois, olhou os pães de queijo ao lado de que deitou a roupa. Sem dúvida iriam acabar endurecendo.
Provavelmente se o casal tivesse dado as mãos e seguido juntos pela rua, caminhando preferencialmente pelas sombras, desviando das raízes de árvores centenárias que manejavam erguer o concreto, se a voz debilitada de um avisasse ao ouvido ensurdecido do outro a presença de fezes de cães na rua, e dessa maneira continuassem até desaparecer da visão de Jorge, ele sabia que não encontraria paz durante o resto do dia. Não sabia bem apontar o porquê, mas algo de liberdade estalou no seu peito ao ver, pela janela em que se apoiava, poucos segundos antes de abrir o farol, a velha senhora largar o braço do seu companheiro e atravessar a rua o mais rápido que lhe permitiram as pernas arqueadas. Atônito, ele procurou segui-la, mas antes de atingir a terceira listra da faixa de pedestres foi quase atropelado por uma Kombi em alta velocidade. Ao desviar dele, o automóvel acionou uma buzina aguda, e esta pareceu servir de trilha sonora para a raiva que transfigurou o parcimonioso rosto de um senhor idoso em um grotesco e sanfonado símbolo do ultraje. O ônibus partiu antes que Jorge pudesse ver qual seria o próximo movimento da ópera, mas voltando o rosto para o lado vislumbrou a senhora que continuava o seu caminho impassível, e embora com a expressão indiferente, o movimento das ancas, dos ombros e mesmo dos seios flácidos, sob o ritmo apressado dos passos, ressoavam desde a rua e por todo o quarto como uma silenciosa gargalhada.
- Jorge. – Cabeça e ombros de mulher esgueiraram-se por uma fresta aberta na porta. – Vocês vão sair? Eu queria limpar o seu quarto.
Era a mãe de Jorge, mulher de quarenta e poucos anos, tinha os olhos redondos, maçãs do rosto salientes, pernas e quadris como uma taça, parecia ser mais feita de círculos do que de retas. Era uma bela mulher, entretanto, permitia-se pintar os cabelos de vermelho sem parecer vulgar, a palidez do rosto e as manchas sob os olhos eram as ondas circulares ao redor da pedra lançada na água. A pedra, até onde Vegas sabia, era o abandono do marido há alguns anos, e parecia não querer nunca afundar por completo. Agora trazia abraçada junto ao estômago um vaso de orquídeas brancas. Só ela sabia as economias que tinha de fazer alguns meses para ter espalhados pela casa um número desses vasos que lhe enchesse a alma, mas não reclamava. Vegas percebeu que o cacho de flores brancas misturava-se aos cabelos vermelhos da mulher, e percebeu que ela trazia sem saber um foco de cores para o quarto já parecido com uma fotografia de daguerreótipo. Jorge voltou-se de onde estava, apoiado na janela. Mais opaco do que nunca, encarou a mãe como se não a enxergasse, antes de responder.
- Já saímos, só vou me vestir. E pode deixar que a escrivaninha eu limpo, mãe.
A mulher assentiu antes de dar um passo para trás e fechar a porta, devolvendo ao quarto e a eles a escuridão anterior. Vegas, que desprendera-se um pouco das capas, das rosas e dos mistérios, olhou ainda por algum tempo o local onde a mulher estivera parada.
- Que vamos hacer? Nos vamos quedando solos! – Exclamou o professor quando o último aluno, com exceção de Vegas, saiu da classe. Apagava a lousa, fechava o caderno e enfiava seu material dentro da pasta com uma dinâmica ávida e mecanizada. Vegas sentou-se sobre uma mesa e ficou observando o professor, sentia um prazer muito tranqüilo em conversar com ele, ficar ao seu lado ou apenas ouvi-lo, e tinha a impressão de que o professor também lhe dirigia um apreço diferenciado, posto que dificilmente não se deixava estar na sala alguns minutos após bater o sinal e todos os outros estudantes saírem em debandada para o intervalo, a fim de serem os primeiros na fila da cantina ou ansiosos para darem continuidade cada qual à própria trama supérflua e excitante de banalidades, construída de intervalo em intervalo.
- Inspirado pelo texto de hoje, professor? – questionou Vegas, tendo que mover constantemente os olhos para acompanhar todos os movimentos do outro. Davi parou para encarar o aluno com um ar amigável, subindo as sobrancelhas cheias e fazendo crescer os olhos azuis muito claros.
- Juan Carlos Onneti...Carlos como você, olhe só, não havia reparado. É uma pena que metade desses cabeça oca não tenha entendido nada.
- Só metade é uma bondade do senhor. – corrigiu Vegas, mas não possuía malícia no tom de voz.
- Não é bondade. A outra metade entende sim, mas é pior, porque não se importa.
Foram interrompidos por movimentos e sons estranhos invadindo a classe. Era a figura de Laura, para Vegas sempre muito perturbadora, metida em calças claras e regata preta que evidenciavam suas proporções muito agradáveis. Mas além disso, o que mais o perturbava eram os olhos um pouco triangulares, os lábios pálidos e sempre sorridentes, perigosos como uma pistola carregada.
- O Onetti se parece um pouco com o Vegas, o que você acha? – perguntou dirigindo-se ao professor, enquanto caminhava cadenciadamente até a sua carteira e abria o estojo jeans com um movimento cortante.
- Não acho. – Replicou o professor calmamente. Laura tirou uma nota de dez amassada e suja de dentro do estojo, enfiou-a no bolso de trás da calça e depois encolheu os ombros.
- É uma pena. Devo ser só eu. – Jorge apareceu na porta, encostou no batente e ficou esperando Laura se aproximar. Acenou com um movimento de cabeça para o amigo e lançou duas palavras firmes de cumprimento ao professor. Não desgrudava os olhos da garota, que em resposta parecia zanzar ainda mais do que o necessário de um lado para o outro, catando coisas e colocando-as nos bolsos, antes de juntar-se a ele com um enorme sorriso de desculpas. Afastaram-se juntos.
- Uma verdadeira Susan Hayward essa Laura. – como Vegas não respondesse e ainda o olhasse com confusão, sentou-se na mesa de professor diante do aluno, onde ficou até o término do intervalo e o início da aula seguinte. É uma atriz famosa da década de 50 – explicou, ganhou um Oscar pelo filme Quero Viver!...

Espreitar o monstro que os espreitava.
Esse sem dúvida era o primeiro movimento, e a partir dele descobririam os seguintes, até terminar em uma faca enterrada no peito do monstro, nada antes e nada depois.
Jorge e Vegas saíram de casa quietos e seguiram quietos pelas veredas, dobrando esquinas e atravessando pequenas ruas, até chegarem na larga avenida em que o monstro vivia. Era o tempo todo uma avenida movimentada, barulhenta, uma passarela de pessoas agitadas para chegarem aos seus compromissos, às suas casas, e além disso, não era muito limpa, trazia ratos e baratas transitandp principalmente onde o lixo se acumulava, mas ninguém parava diante deles tempo o suficiente para sentir medo – embora fossem os mesmos ratos e baratas que os apavoravam em casa, nas cozinhas e nos quartos. Se ratos e baratas não diferiam muito entre si, o que mudava, realmente, é o lugar em que decidiam se mostrar - na avenida para onde se dirigiam Jorge e Vegas eles caminhavam entre os pés dos transeuntes e residiam nas pilhas de sujeira sem que ninguém lhes desse uma atenção especial. O que pode ser, calculou Jorge, uma explicação plausível para o descaso sobre a presença execrável do monstro, no fim, não muito mais do que a mutação de um rato, maior e mais refinado do que o seu antecessor.
Ninguém o notava, exceto Jorge e Vegas, que faziam alguns dias antes o seu natural caminho para o colégio e falavam sobre cinema, namoradas, geometria analítica, o rosto feio e as pernas bonitas da professora Kátia, quando, por falar em pernas, notaram um homem grotesco olhando as pernas das meninas e levantando suas saias quando passavam distraídas, estendendo o pé para fazer cair senhores de idade e roubando a carteira e os cigarros dos bolsos dos homens, tudo isso sem que ninguém suspeitasse, apertado o estranho corpo em roupas respeitáveis e apressado e importante o passo que adotava para se deslocar entre uma maldade e outra. Dia após dia, as maldades foram ficando piores, enquanto o esquecimento de Jorge e Vegas com relação ao monstro, mais raros. No dia seguinte ao primeiro encontro com o monstro, surpreenderam-se com sua presença, trazendo a lembrança do dia anterior como algo longínquo e difícil. No terceiro encontro, após se depararem com o monstro, carregaram-no consigo em pensamento todo o caminho até a escola e no quarto, durante todo o resto do dia. Foi no quinto dia que, Jorge e Vegas, no momento em que se encontraram para caminhar até o colégio, não trocaram nenhuma palavra e se entreolharam rapidamente, com o esforço de não deixar transparecer pelo olhar qualquer pensamento que fosse. Ambos sabiam que os pensamentos eram demasiadamente terríveis. Havia neles um número indefinível de maldades, pessoas que viam suas faculdades mentais e físicas confundidas, outras oprimidas por obstáculos ilusórios de opressão..., e por trás de tudo isso, sempre rosto feio e mesquinho do monstro. Se havia alguma vantagem em tanta ação deliberada, era que Jorge e Vegas observavam o monstro sem que ele desconfiasse. Não sabiam ainda o que fazer, espreitavam o monstro que os espreitava. Depois disso, e até o dia seguinte, não havia nada.

Laura chegou em casa poucos minutos antes de Jorge. Os dois haviam se separado no caminho, o garoto delicadamente a acompanhara até um ponto a três quarteirões de sua casa, quando a menina, despistando-o com a desculpa de ter que parar no supermercado para comprar algumas batatas e brócolis para o jantar daquela noite, fez com que ele voltasse. Parada na escadaria diante do mercado, ela o observou caminhar de costas, no início apreensiva de que ele voltasse o rosto em sua direção, mas depois relaxando e se sentando nos últimos degraus. Era uma longa subida antes que Jorge tivesse que dobrar a esquina, e Laura gostava de observá-lo enquanto caminhava. Tinha a impressão de que pessoas em movimento eram menos infelizes do que pessoas paradas. Não porque houvesse distinção na presença dos pensamentos em qualquer um dos casos, mas porque os pensamentos de alguém em movimento tendiam ser mais ativos, e dessa forma, não se deixavam nunca afundar no grosso lodo da melancolia. Para isso havia bancos de praças, pensou Laura, bobamente. Quando voltou a encarar as costas de Jorge, ele já se encontrava muito perto da esquina. Eram costas muito queridas, os cabelos castanho escuro eram muito querido, os braços um pouco fortes e bastante brancos, lhe eram muito queridos. Jorge dobrou a esquina e tirou todo seu corpo querido de sob a visão de Laura. Com um suspiro, ela se levantou de onde estava e voltou a caminhar em direção a sua própria casa.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gycklarnas afton e Sommarlek



Noites de Circo (I. Bergman) Alphaville (Godard)
Macbeth (Orson Welles) Juventude (I. Bergman)
Os sete samurais (Kurosawa) Magnólia ( Paul Thomas Anderson)
Fanny & Alexander (I. Bergman) Um estranho no ninho (Milos Forman)
Pulp Fiction, Bastardos Inglórios (Tarantino) Morangos SIlvestres (I. Bergman)
Lisbela e o Prisioneiro (Guel Arraes) Os Sonhadores (Bertolucci) O Crepúsculo dos Deuses (B. Wilder) Roshomon (Kurosawa) Crash (Paul Haggis) Os Incompreendidos, Beijos Proibidos, Domicílio Conjulgal, O Amor em Fuga, O Homem que Amava as Mulheres (Truffaut) Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha), Freud Além da Alma (John Houston), Morte em Veneza (Luchino Visconti), Dogville (Lars Von Trier), Veludo Azul (David Lynch)

_

Para ver:

O desprezo (Godard)

Janela Indiscreta (Hitchcock) 12 homens e uma sentença (Lumet)

A casa de pequenos cubinhos (Kunio Katô) Dançando no escuro (Lars Von Trier)

Boogie Nights (P. T. Anderson) Morte em veneza (Luchino Visconti)

O túmulo dos Vagalumes (88, Takahata) Amadeus (Milos Forman)

8¹/2 (Fellini)

A mulher de Todos (Sganzerla) O signo do caos (Sganzerla)

A mulher de areia (Teshigahara) Síndromes e um século,

Tio Boon Me, que pode recordar das suas vidas passadas (Apichatpong Weerasethakul) Delicatessen (Jean-Pierre Jeunet)

ABRIL DESPEDAÇADO (WALTER SALLES)

Milenium Actress (Satoshi Kon)
O demônio das Onze Horas (Godard)
taxidriver (Scorsese)
Prelúdio para matar, Tenebre (Dario Argento)
Viridiana, O Anjo Exterminador (roteiro: Buñuel)
De olhos bem fechados (Kubrick)


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

(Só alguns) Trechos de Os Prêmios, J. Cortázar

(Pirueta petulante de Pérsio sob as estrelas)
__
Havia alguma coisa de comovente em Felipe; era adolescente demais, tudo demais: bonito, tolo, absurdo. Só quando calado alcançava certo equilíbrio, seu rosto aceitava sua idade, suas mãos de unhas roídas pendiam de qualquer lado com perfeita indiferença. Mas, se falava, se queria mentir (e falar aos dezesseis anos é mentir), a graça desaparecia toda, e ficava apenas uma desajeitada pretensão de suficiência, igualmente comovedora mas irritante, um espelho turvo onde Paula se revia nos seus tempos de ginásio, as primeiras tentativas de libertação, o fim humilhante de tantas coisas que deviam ter sido belas.
__
Por isso mesmo, talvez, ela teria podido dizer-lhe que era um canalha, poderia dizer-lhe tranquilamente, olhando-o com o olhos nos quais sua propria intranquilidade brilhava como um direito bem ganho, o direito do cúmplice, a recriminação do recriminável, muito mais amargo e mais justo e mais fundo que o do juiz ou do santo.
__
Se um dia ele se apaixonasse realmente por Paula, porque agora não estava apaixonado ("agora não estou apaixonado -pensou, - agora quero simplesmente ir para a cama com ela, e viver com ela e estar com ela), então o tempo lhe mostraria seu verdadeiro rosto cego, proclamaria o espaço infranqueável do passado, onde não entram as mãos e as palavras, onde é inútil jogar uma porca contra uma ponte de comando porque não chega e não quebra, onde toda passagem se vê contida por um muro de ar, e todo beijo encontra como resposta a zombaria insuportável do espelho.
__
Não podia chorar por ele, não tinha sentido chorar por alguém que mal se conhecia, alguém simpático e cortês, e talvez já um pouco apaixonado, e em todo caso bastante homem para não suportar a humilhação dessa viagem, mas não era ninguém para ela, apenas umas horas de conversa, uma aproximação virtual, uma simples possibilidade de aproximação, uma mão firme e carinhosa sobre a sua, um beijo na testa de Jorge, uma grande confiança, uma xícara de café bem quente. [...] Tinham-no matado como a um cão, decidindo por ele, acabando com sua vida sem que tivesse sequer podido aceitar ou negar. E o fato de não ser o culpado era, assim, perante ela, a pior, a mais insanável das culpas. Alheio, entregue a outras vontades, grotesco alvo para a pontaria de qualquer um, sua traição era como um inferno, uma ausência eternamente presente, uma carência enchendo o coração e os sentidos, um infinito vazio no qual ela cairia com todo peso de sua vida.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Discussão da vulgaridade em Os Prêmios

Cortázar possui a habilidade de se estender por diálogos infinitos - e maravilhosos - sem se perder nos truques e nas aparentes facilidades dessa modalidade. Aliás, ele o faz quase de propósito em Os Prêmios, um desafio a velhos preconceitos literários. O romance coloca em nova perspectiva o conceito da vulgaridade na obra literária (e outras vulgaridades comportamentais e da psique individual e coletiva), começando mesmo com uma ironia neste sentido:
"A marquesa saiu às cinco horas."
López lembra-se dessa frase e por alguns momentos se pergunta onde a teria escutado pela primeira vez. Ela pertence na realidade ao poeta Paul Valéry, que por horror à vulgaridade na literatura e se dizendo incapaz de começar uma história dessa maneira, não conseguia escrever romances. Cortázar aceita o desafio e finaliza um trabalho simultaneamente belo e profundo, abrindo já precedentes para a obra Jogo de Amarelinha, concretização das inovações literárias com que ele flerta em Os Prêmios.
Somos apresentados, neste romance, a diferentes formas de vulgaridade: começando por Pelusa e sua espalhafatosa família, passando pelo constrangedor relacionamento de Lúcio e Nora, a improdutividade de Paula e castração de Raul, até chegarmos à vaidade de Felipe Trejo. Temos cada qual com sua deformidade exposta pelo olhar do outro, a trama vai se desfiando claramente por aquilo que Pérsio chama de simultâneo.
"Percebem? Se eu visse simultaneamente tudo o que vêem os olhos da raça, os quatro bilhões de olhos da raça, a realidade deixaria de ser sucessiva, se petrificaria numa visão absoluta na qual eu desapareceria, aniquilado. Mas essa aniquilação, que fogaréu triunfal, que Resposta! Impossível conceber o espaço a partir desse instante, e muito menos o tempo, que é a mesma coisa em forma sucessiva"
Como é possível notar, enquanto por meio dos ganhadores do prêmio acontece a exemplificação do ”simultâneo”, a simples presença de Pérsio representa um disco girando à parte o sistema de engrenagens formado pelos outros. Como diria Jorge, no mar podemos ver melhor as estrelas do que na terra. Assim, ao nos aproximarmos melhor da constelação dos viajantes, somente possível pela viagem, Pérsio se aprofunda mais nas suas próprias descobertas de universos paralelos e Cortázar emancipa a literatura escrevendo uma obra dentro de outra obra, os capítulos A,B,C..., em meio aos capítulos I, II, III...
Em Os Prêmios é a vulgaridade o ponto de partida para as mais diversas evoluções, comprovando o que o autor pontua com a epígrafe escolhida:
“É impossível deixá-las sempre fora da ficção, pois as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente dos assuntos humanos; se as suprimimos, perdemos toda probabilidade de verdade” Dostoiévski, O Idiota, IV, 1.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Bar Don Juan, Antonio Callado

No ar noturno viu surgir diante dos olhos, pela última vez, uma barroca estrutura de balcões avarandados que se debruçavam sobre um pátio: as grades de ferro cediam, as pedras se desconjuntavam, ruíam em silêncio e em pouco a jaula do pesadelo era um punhado de fino pó que o vento carregava, deixando apenas um deserto escuro e limpo. Laurinha tinha explorado seu último caminho, só lhe restando agora o caminho da absoluta liberdade em que se movia - aquela liberdade que ninguém escolhe, que ninguém prefere, que chega para alguns como chega, para todos, a noite.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

dia de chuva

a janela em dia de chuva se parece com uma pessoa.
eu sinto que poderia me apaixonar.
acordar muito cedo, caminhar pelas ruas do condomínio deserto com os fones de ouvido. 400, 500, 800 metros e as árvores por que passo já estão se repetindo há algum tempo.
voltar para casa, lavar o rosto e o dorso, prender o cabelo bem puxado para trás e acompanhar meu pai no café da manhã, tenho a impressão que engatinhamos sempre, mas nosso primitivo me agrada como uma bonita lembrança congelada, repetindo-se dia após dia.
nadar. Mil metros. Sentir o coração, os rins, o fígado, sentir tudo que há para sentir sem nome, dar piruetas fingindo que o esforço feito na água é correspondente ao esforço feito pelas aves no céu.
longo banho muito quente no início, gradativamente ficando frio. Ordem de sabonete-esponja-shampoo. Sair do banho e se olhar no espelho, na breve fração de tempo absolutamente limpa.
sentar no sofá branco do quarto de hóspedes lendo Madona de Cedro (antes Poe, antes Noite de Reis, antes Macbeth, antes Hamlet) e parando às vezes para assistir à janela como uma longa e límpida televisão, os pensamentos não desenvolvem todos a mesma geometria. Lembram um quadro de Miró, em forma e cor.
a rotina de férias pode ser muito simples e muito feliz.
a janela em dia de chuva se parece com uma pessoa.
eu sinto que poderia me apaixonar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

contas do cordão (pequenos delírios)

(1)Havia um gato castanho lindo em frente a uma loja de malhas. Ele miou quando entrei, miei de volta disfarçada em um oi. Em frente ao espelho fiquei infeliz com os olhos muito vermelhos de cloro, entao ele se levantou e veio se esfregar na minha perna. Sentou logo ao lado, e após coçar atrás da orelha fixou os olhos além, em um ponto que não sei o que era. Finalmente foi se sentar de novo na porta e eu, que não me sentia sozinha, passei a me sentir.

(2)Gregorovius dizendo, argila é sombra concreta. Sombras dançam na página do livro. Japonesinha atrás de mim procurava o casaco esquecido no sofá.

(3) Se eu pudesse, te daria os reflexos de todas as poças formadas pela chuva, a mulher gritando que era o fim do mundo, a loja de embrulhos, o lixo empilhado no canto da rua. Se eu pudesse escolher um presente, escolhia os homens escondidos nas guaritas, os de boné virado para trás e os que desejam tenha um bom dia, daria o meu tédio diante de qualquer outro homem e dos jogos de sedução, também te daria as padarias e as lojas de doces, os sorvetes, as tardes na piscina, principalmente a hora do impulso contra a parede em direção a mais uma chegada. Os cobertores, os livros, as tramas antigas despidas de nomes e detalhes, liquefeitas pela memória como se passadas em um coador. Se eu pudesse, daria a melancolia após o almoço, a vivacidade da madrugada, o som das rodas de motocicleta contra o asfalto molhado, o olhar das pessoas dentro dos ônibus, os olhos de lanterna sobre o insulfilme.

(4) Hoje estoy libre, nem sei a quanto tempo engulo aquela merda de comprimido e me levanto ao som de buzina, sino, grito. Juro que estou feliz, se quiser mesmo ter ido embora, que se dane. Tem a encaixe e as pastas com divisória e capa florida, o teatro no final de semana e o restaurante da sexta feira, acha o que? Eu aguento sim, a culpa é sua o samba é meu. Aguento sim quando ela explodiu junto com o avião e ficou toda queimada, é só que os desafetos não deviam sumir no mundo antes de sumirem na gente. Fico agora nas ruas pensando nela sem procurá-la, sei mesmo que não ia achar, tem gente que quando coloca o pé na estrada é pra nunca mais, nem por acaso. Assim feito você, ou esse homem ao meu lado, de terno cheirando a fritura e a cerveja. O mundo não para, a responsabilidade é minha, a culpa é sua, mas mesmo assim você podia ficar aqui comigo, just a little longer.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quando o viu pela primeira vez, estava sentado adiante em um dos sofás do bar de um hotel em Serra Negra. O senhor lançava olhares de breve impaciência para um casal que discutia onde ficava localizada a Capela Sistina. A esposa afirmava veementemente ser em Madrid, enquanto o homem sustentava estar na Itália. Mariana observava desinteressada a discussão, achando graça apenas na angústia crescente do solitário homem taciturno. Era um daqueles tipos que aparecem geralmente em aeroportos ou hotéis, com quem se convive apenas um breve espaço de tempo, suficiente para fazer surgir uma pontada de apreensão, mas não longo o bastante para que se concretizasse um medo. Apesar de tudo, gostou dele e daquela cintura extraordinariamente fina apertada por um cinto marrom, da camisa pólo, os cabelos brancos bem arrumados e até mesmo das manchas arroxeadas sob os pequenos olhos castanhos.
- Vaticano. – Ele finalmente disse baixo e sem encarar o casal nos olhos, fazendo um trejeito com a cabeça. O que poderia parecer excentricidade, apareceu diante dos olhos de Mariana como uma espécie trabalhada de timidez.
- Boa noite. – disse Mariana ao se levantar, sorrindo com o carinho recém despertado. Levantou os olhos surpresos, como se esses fossem novos olhos surgidos dos antigos, e foi esse olhar que transformou a simpátia de Mariana em reservada admiração.
Minha mãe:
Que foi?
Minha avó:
Uma mosca comeu um boi.

trecho

É o seguinte. - disse, levantando-se da cama e indo em direção ao menino também jovem que mexia distraidamente no computador. Ele a olhou apenas interessado. - Tem algumas coisas que ficam na minha cabeça. - Trancou os lábios, não gostava quando falava sem coragem e as declaraçoes se tornavam introduções absurdas e pretensiosas. - A expressão do rapaz aos poucos ia sendo fisgada para cima, ele parecia achar graça. - Não, sério. Olha, agora é muito normal nós dois aqui, certo? Parece muito certo, mas um dia não vai ser assim. Um dia você vai ser tudo que poderia ser, e mais algumas coisas que a gente bão imaginava, e vai ter algumas pomadas que hoje não conhece na sua necessaire, talvez alguns quilos a mais, uma profissão talvez não tão lisonjeira, ou melhor, você vai estar tão mergulhado nela que nem vai se lembrar que ela te define como de alguma forma está agora te definindo aqui na minha cabeça. E, o que pode parecer meio absurdo agora, não logica, mas praticamente, nós vamos ter deixado de nos ver faz tanto tempo que eu serei apenas um pontinho do seu passado, bem menos definidor do que sua profissão, é claro, e nossa relação toda vai ser diferente. Quer dizer, você vai lembrar da nossa relação agora e ela vai se configurar de forma totalmente diferente, não vai entender como ficamos juntos por tanto tempo e como você aguentou e eu aguentei algumas coisas que agora é meio difícil de pensar como não aguentaríamos. Entende? O que me deixa meio lunática é estar aqui, nesse quarto com você agora, lendo um livro fantástico na sua cama e você no computador e sentir essa traição do futuro por dentro não me deixando em paz.

Sonho em campos de Jordão, primeiro dia de viagem

É anunciado pelo computador uma festa na frente do meu antigo colégio, Palmares, onde cursei o colegial. Fico sabendo por acaso, abrindo janelas aleatórias da internet. Resolvo aparecer. A primeira imagem é bastante chocante, uma multidão como bloco de carnaval está na porta do Palmares, são rostos conhecidos e desconhecidos, entrelaçados como se nada fosse mais natural. Não consigo me aproximar de ninguém, vislumbro constantemente o rosto da Barbara, mas também não consigo me aproximar dela. A angústia vai me deixando nervosa, com o meu celular ligo para a Lea, amiga desde os tempos do Rio Branco, que me chama de tonta e diz que eu deveria ter ido para Alphaville em uma reuniãozinha que estava havendo lá e para a qual havia me convidade. Agradeço, mas apesar de tentada, sei que estou muito longe e muito envolvida na festa do Palmares para poder deixar o local. Ligo então para o meu pai, dizendo que está tudo uma confusão, que não gosto de ficar lá. Ele vai até onde acontece a festa com um maço de papéis, senta debaixo de uma árvore e diz que para me levar embora eu vou ter que ajudá-lo a organizar algumas informações do seu trabalho. Dando uma olhada nos papéis vejo que o que ele me pede só o prejudicará, tanto quanto não quero fazer nada mesmo, é muito trabalhoso e levaria muito tempo, coisa da qual sentia não dispor. Digo isso a ele e ele concorda comigo, logo em seguida prestando atenção na Pilar, minha amiga do Palmares, que, aparecendo com dois cabides cheios de blusas e lingeries explica como foi o processo de modelagem em que entrou. Com o jeans que eles queriam anunciar, decidi usar um fio-dental, mas eles não tinham nenhum na coleção e o que me conseguiram era barato, explica e meu pai acha graça. Me afasto e sei que pouco depois ele foi embora. Continuo na festa, penso ainda na Barbara, que não apareceu mais desde então. Isso deixa de importar quando encontro com Rodrigo Guedes, Guilherme Reis e Tiago (?), nos sentamos em um restaurante indiano e ficamos conversando em uma cena parecidissima com uma cena de Ciranda de Pedra, mais pelas conversas do que pelo ambiente em si. Uma música indiana não para de tocar, até que um deles diz que a festa mudará de local e todos temos que pegar um avião. Concordo imediatamente, mas me perco deles quando entro no avião. O piloto é um garoto da festa, ele tenta decolar partindo de uma rua de asfalto. O espaço não é suficiente e o avião se torce inteiro na tentativa afobada de subir para ultrapassar uma loja servindo de obstáculo em muito em pouco tempo. Caímos. Sei que muita gente morreu, fico me perguntando quem teria, mas não lembro quais pessoas estavam na festa e era impossível identificar todos sobreviventes. Me pergunto se a Barbara ainda estará viva. Um rapaz abre um buraco no teto do avião em frangalhos e pula para fora dele. Imediatamente é alvejado de balas e cai morto, um clima de pânico se instala. Saímos atrás dele mesmo assim, sentindo que nada seria pior que permanecer no avião. Diversos homens armados e de uniforme lembrando a polícia estão do lado de fora, apontando suas armas para a gente. Demoramos um pouco até entender que o que eles querem evitar é que a notícia da queda do avião se espalhe - para isso, é preciso exterminar quem estava dentro dele. Em grupos ou sozinhos, todos tentamos fugir, encontro e desencontro várias pessoas do Palmares no meio tempo. Mas sempre acabamos sendo cercados, e meus amigos geralmente caíam baleados ou então eram acertados por uma dose absurda de uma substância que age no cérebro, os deixando completamente loucos. Percebo que se me fingir de louca, pouparão minha vida, ainda tendo a chance de preservar a sanidade. Uma mulher-guarda desconfia de mim, e, indo até um quiosque em que abatem pessoas, me dá um problema matemático de alta dificuldade para eu resolver durante o caminho - descubro que as pessoas loucas se tornam extremamente habilidosas em exercícios de lógica. Se eu não resolvê-lo, me matarão assim que eu chegar lá. Não resolvo e ela me entrega para um dos responsáveis do quiosque, para que ele atire em mim. Quando ele se volta em minha direção, vejo o rosto do Luís, um antigo amigo da Rio Branco que não vejo desde que saí da oitava série. Com ele tive uma relação de amor e ódio, o que, como é sabido, geralmente é apenas uma relação de amor. Acho que nossos desentendimentos o ajudarão a atirar em mim, e sofro por isso, já que lembro também que gostei dele como gostei de pouquissimas pessoas. Ele, para minha surpresa, também fica pálido. E me entrega um sapato. O sapato, me explica, pode servir de telefone, e com esse telefone poderia ligar para polícia. Tenho que correr antes que me descubram, apertando o sapato com as duas mãos digo que o amo, que sempre amei, e ele sorri parecendo triste. O sapato me liberta, com a sua posse todos acham que sou um dos carrascos. Pego uma carona com uma garota ruiva e ligo para a polícia, que logo vai para a área do avião e controla a situação. Ligo para Luis com o sapato para avisar , mas na sua sola aparece uma foto dele e as inscrições: esse homem foi morto por ajudar uma das vítimas. Acordo.