segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

(Só alguns) Trechos de Os Prêmios, J. Cortázar

(Pirueta petulante de Pérsio sob as estrelas)
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Havia alguma coisa de comovente em Felipe; era adolescente demais, tudo demais: bonito, tolo, absurdo. Só quando calado alcançava certo equilíbrio, seu rosto aceitava sua idade, suas mãos de unhas roídas pendiam de qualquer lado com perfeita indiferença. Mas, se falava, se queria mentir (e falar aos dezesseis anos é mentir), a graça desaparecia toda, e ficava apenas uma desajeitada pretensão de suficiência, igualmente comovedora mas irritante, um espelho turvo onde Paula se revia nos seus tempos de ginásio, as primeiras tentativas de libertação, o fim humilhante de tantas coisas que deviam ter sido belas.
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Por isso mesmo, talvez, ela teria podido dizer-lhe que era um canalha, poderia dizer-lhe tranquilamente, olhando-o com o olhos nos quais sua propria intranquilidade brilhava como um direito bem ganho, o direito do cúmplice, a recriminação do recriminável, muito mais amargo e mais justo e mais fundo que o do juiz ou do santo.
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Se um dia ele se apaixonasse realmente por Paula, porque agora não estava apaixonado ("agora não estou apaixonado -pensou, - agora quero simplesmente ir para a cama com ela, e viver com ela e estar com ela), então o tempo lhe mostraria seu verdadeiro rosto cego, proclamaria o espaço infranqueável do passado, onde não entram as mãos e as palavras, onde é inútil jogar uma porca contra uma ponte de comando porque não chega e não quebra, onde toda passagem se vê contida por um muro de ar, e todo beijo encontra como resposta a zombaria insuportável do espelho.
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Não podia chorar por ele, não tinha sentido chorar por alguém que mal se conhecia, alguém simpático e cortês, e talvez já um pouco apaixonado, e em todo caso bastante homem para não suportar a humilhação dessa viagem, mas não era ninguém para ela, apenas umas horas de conversa, uma aproximação virtual, uma simples possibilidade de aproximação, uma mão firme e carinhosa sobre a sua, um beijo na testa de Jorge, uma grande confiança, uma xícara de café bem quente. [...] Tinham-no matado como a um cão, decidindo por ele, acabando com sua vida sem que tivesse sequer podido aceitar ou negar. E o fato de não ser o culpado era, assim, perante ela, a pior, a mais insanável das culpas. Alheio, entregue a outras vontades, grotesco alvo para a pontaria de qualquer um, sua traição era como um inferno, uma ausência eternamente presente, uma carência enchendo o coração e os sentidos, um infinito vazio no qual ela cairia com todo peso de sua vida.

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