a janela em dia de chuva se parece com uma pessoa.
eu sinto que poderia me apaixonar.
acordar muito cedo, caminhar pelas ruas do condomínio deserto com os fones de ouvido. 400, 500, 800 metros e as árvores por que passo já estão se repetindo há algum tempo.
voltar para casa, lavar o rosto e o dorso, prender o cabelo bem puxado para trás e acompanhar meu pai no café da manhã, tenho a impressão que engatinhamos sempre, mas nosso primitivo me agrada como uma bonita lembrança congelada, repetindo-se dia após dia.
nadar. Mil metros. Sentir o coração, os rins, o fígado, sentir tudo que há para sentir sem nome, dar piruetas fingindo que o esforço feito na água é correspondente ao esforço feito pelas aves no céu.
longo banho muito quente no início, gradativamente ficando frio. Ordem de sabonete-esponja-shampoo. Sair do banho e se olhar no espelho, na breve fração de tempo absolutamente limpa.
sentar no sofá branco do quarto de hóspedes lendo Madona de Cedro (antes Poe, antes Noite de Reis, antes Macbeth, antes Hamlet) e parando às vezes para assistir à janela como uma longa e límpida televisão, os pensamentos não desenvolvem todos a mesma geometria. Lembram um quadro de Miró, em forma e cor.
a rotina de férias pode ser muito simples e muito feliz.
a janela em dia de chuva se parece com uma pessoa.
eu sinto que poderia me apaixonar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário