domingo, 13 de fevereiro de 2011

Discussão da vulgaridade em Os Prêmios

Cortázar possui a habilidade de se estender por diálogos infinitos - e maravilhosos - sem se perder nos truques e nas aparentes facilidades dessa modalidade. Aliás, ele o faz quase de propósito em Os Prêmios, um desafio a velhos preconceitos literários. O romance coloca em nova perspectiva o conceito da vulgaridade na obra literária (e outras vulgaridades comportamentais e da psique individual e coletiva), começando mesmo com uma ironia neste sentido:
"A marquesa saiu às cinco horas."
López lembra-se dessa frase e por alguns momentos se pergunta onde a teria escutado pela primeira vez. Ela pertence na realidade ao poeta Paul Valéry, que por horror à vulgaridade na literatura e se dizendo incapaz de começar uma história dessa maneira, não conseguia escrever romances. Cortázar aceita o desafio e finaliza um trabalho simultaneamente belo e profundo, abrindo já precedentes para a obra Jogo de Amarelinha, concretização das inovações literárias com que ele flerta em Os Prêmios.
Somos apresentados, neste romance, a diferentes formas de vulgaridade: começando por Pelusa e sua espalhafatosa família, passando pelo constrangedor relacionamento de Lúcio e Nora, a improdutividade de Paula e castração de Raul, até chegarmos à vaidade de Felipe Trejo. Temos cada qual com sua deformidade exposta pelo olhar do outro, a trama vai se desfiando claramente por aquilo que Pérsio chama de simultâneo.
"Percebem? Se eu visse simultaneamente tudo o que vêem os olhos da raça, os quatro bilhões de olhos da raça, a realidade deixaria de ser sucessiva, se petrificaria numa visão absoluta na qual eu desapareceria, aniquilado. Mas essa aniquilação, que fogaréu triunfal, que Resposta! Impossível conceber o espaço a partir desse instante, e muito menos o tempo, que é a mesma coisa em forma sucessiva"
Como é possível notar, enquanto por meio dos ganhadores do prêmio acontece a exemplificação do ”simultâneo”, a simples presença de Pérsio representa um disco girando à parte o sistema de engrenagens formado pelos outros. Como diria Jorge, no mar podemos ver melhor as estrelas do que na terra. Assim, ao nos aproximarmos melhor da constelação dos viajantes, somente possível pela viagem, Pérsio se aprofunda mais nas suas próprias descobertas de universos paralelos e Cortázar emancipa a literatura escrevendo uma obra dentro de outra obra, os capítulos A,B,C..., em meio aos capítulos I, II, III...
Em Os Prêmios é a vulgaridade o ponto de partida para as mais diversas evoluções, comprovando o que o autor pontua com a epígrafe escolhida:
“É impossível deixá-las sempre fora da ficção, pois as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente dos assuntos humanos; se as suprimimos, perdemos toda probabilidade de verdade” Dostoiévski, O Idiota, IV, 1.

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