terça-feira, 28 de dezembro de 2010

heróis

O sono foi deixando de vir, deixando de vir, deixando de vir. Há algo de tranqüilo em saber que há noite lá fora, em saber tudo escuro, extático, e em saber todas as coisas nem escuras nem extáticas ao longo da noite causando um alívio ainda maior. Certos acontecimentos só podem suceder à noite... Bolos de caixa, bebidas, até uma conversa política surgida não sei bem de onde no meio da orgia glicêmica-alcoólica realizada por nós durante madrugadas multiplicando-se em muitas casas cercadas de muito mais casas, quietas em contraste. E essas noites se multiplicam dia após outro. Pois pelo menos os meus dias começam sempre iguais: ou quase sempre, com uma leve alteração na composição dos carboidratos; uma fruta, um iogurte e duas torradas ou uma fatia de pão ou biscoitinhos maisena. Mas a noite é cuspida sempre de uma boca diferente, e aí vai se desenrolando em músicas, em lembranças, um horrorzinho dos planos, afinal antes da apoteose virão a fruta, o iogurte, os biscoitinhos maisena novamente... Mas deve haver dias que não começam iguais; Deve haver dias que começam no centro da noite, e acordam para a luz antes que a luz acorde para eles, e eu não digo que sejam dias felizes ou que pertençam a pessoas felizes, mas sabê-los fora da minha janela, todos esses sóis solitários e desesperados, não há nada maior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário