segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Woody
Sala de colégio, algumas mesas e cadeiras de madeira, a confusão comum de um dia começando, os minutos antes da aula. Estão presentes amigos do cursinho e do ensino médio, sinto-me um pouco desconfortável. Anunciam alguém especial, entra Woody Allen mais jovem na sala, vai dar uma palestra. Não lembro sobre o que ele fala, mas não é sobre os filmes. Acho que discorre sobre profissões, sobre a sua filosofia de vida ou mesmo sobre a língua inglesa, é difícil distinguir e eu estou demasiadamente encantada com sua presença. A palestra termina rápido. Uma amiga vem até mim e diz, você não gosta dele? Vai até lá, então. Eu corro antes que ele alcance a porta. You have to make more movies, esboço, sabendo que a idéia é estúpida, já que ele não havia de forma alguma parado de fazer filmes, além disso, uso um inglês rudimentar, mas precisava tentar algo. I watch like two of your movies per week, I love them, mostly the old ones; you got make do the old ones again. Ele ri, levantando as sobrancelhas. Two? Well, that’s something. You know, you may be misinterpreted saying things like these. Então ele me abraça e diz. Keep watching them, tough. And I’ll keep in touch. Fico maravilhada, mas minhas amigas me esperam de braços cruzados no fundo da sala. Sua idiota, elas dizem, ele é um velho nojento. O sinal toca e como no jardim de infância, é a hora do banho. Sou pega de surpresa, não sabia dessa regra, mas todos saem com pressa da sala, acabo ficando sozinha com a professora. Você me ajuda a limpar a sala, ela decide, e eu digo, claro que não, vou tomar banho como os outros. Ela diz, mas você nem sabia do banho, enquanto eu nego veementemente. Ela me entrega um copo de água, uma calcinha e um sutiã. Eu dou um gole da água e ela grita: sabia! Se soubesse do banho, teria trazido suas próprias coisas. Eu digo, eu tenho minhas próprias coisas, mas quero essas também. Além do mais, não vou trocar meu sutiã, ele é sexy. A professora me encara chocada, eu saio na direção do banho, mas acabo desviando o trajeto até a porta. Sem saber bem para onde ir, paro em uma doceria que vendia bombons e brinquedos antigos. Devo ter uns vinte reais no bolso, então peço um bombom. O dono da doceria me entrega um e pergunta se está bom. Respondo afirmativamente, então ele me diz que o pequeno bombom custa oito reais. Me explica que se recusa a baixar o preço do que considera arte.
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