segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pessegueiro

Uma árvore de pêssegos, eu acho que nunca vi uma árvore de pêssegos, mas havia uma quando passou correndo por debaixo dos galhos e eu soube que ele nunca mais poderia andar depois que a menina da cadeira de rodas, muito linda e talentosa, parecia uma Billie Holiday surgindo do corredor, disse que uma vez embaixo da árvore de pêssegos ela nunca mais pôde andar. Ele cambaleou um pouco para um lado e outro, então eu tive certeza, gritei e coloquei a mão sobre o estômago, não sabia como era sentir uma dor assim enquanto ele caía no chão e a mãe corria para socorrê-lo. Era uma dor de não acreditar, uma dor de por alguns segundos, e os pêssegos tão bonitos, rosados e amarelos, não conseguia deixar de achá-los bonitos, como se a maldição não fosse culpada de si, apenas existisse. Corri até ele também, o segurei, nada espantava a mãe que já saía para buscar ajuda, eu fico com ele enquanto isso, disse a ela e ela sorriu para si como se fosse comentar na mesa de jantar que eu era uma boa menina. Eu sorri de volta, deitei ao lado dele no chão enquanto era tomado de delírios. Milhares de delírios, não era mais si mesmo, murmurava, sofria, se contorcia, e eu o abraçava muito forte, foi se acalmando, me abraçando de volta, embora talvez não fosse a mim que abraçasse, talvez nem de fato abraçasse, mas se acalmava e era isso que me importava. Não sei em que momento recuperou a consciência ou se precisou de remédios para isso, só sei que já conversávamos, até ríamos, e eu tentava colocá-lo em uma cadeira de rodas quando um rapaz entrou pela porta e nos encarou com uma surpresa divertida. Eu disse, não, não é isso, é que seu irmão não está bem, e ele deu uma risada baixa e disse, claro, claro. Então seus amigos entraram depois dele, entre eles eu conhecia alguns, mas não consegui dar atenção a ninguém, apenas os notei, sem dar atenção.

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