quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Entrevista

- Está muito nervosa, muito estressada mesmo. Está bitolada. Quer me escrever? Não vai ser tão difícil, olha. Roupa toda branca, meio magrelo, famosíssimo. Ainda acho que era mais fácil falar meu nome, mas quer me escrever e se falar as pessoas vão usar seus próprios desenhos, vaidosa, se morde. – Ele deu risada da cadeira em que estava sentado, era o escárnio em pessoa. – O que mais? Eu fumo. – Deu mais risada. – Tenho pai e mãe. Tenho avô vivo e avô defunto: acho importante o negócio de família em entrevistas assim.
Não estava esperando uma entrevista.
- Mas querida, é você que não consegue se decidir sobre o que eu vou fazer. Me deixou aqui plantado, com todo o carinho, faço uma entrevista. Aliás, você podia começar tirando esses fones de ouvido, uma falta de educação. Não faz nada direito e ainda se pergunta por que nada sai direito. Não me interessa se é carta de Vinicius de Moraes para o Tom Jobim em voz alta, uma nostalgia só, e se você tem lembranças em relação a essa carta. Você quer me escrever, não se escrever. Eu acho. Pronto, viu? E senta direito. Eu posso não sentar direito, não tenho nada com isso. Assim que eu gosto, agora vamos lá.
-Relaxa, querida, eu já disse. Vai ser fácil: eu existo. Mas começa você então e a gente conversa, viu, a cena já mudou. É um bar e ainda se pode fumar em bar. – Acende um cigarro distraidamente, parece ainda mais à vontade consigo mesmo após acender o cigarro, como se a nicotina e o benzopireno fossem para dentro junto com as idéias e depois saíssem todos, substâncias e palavras na forma de fumaça. Sorriu como se o sorriso também fosse feito de fumaça. – Me conta, me confessa. Fala das suas tristezas, fala da imensa mediocridade que te aflige, fala que está sendo esmagada pelo cotidiano, e que não sabe, meu bem, não sabe o que vai ser de você depois de tanto sonho perdido, sonhar já soa a hipocrisia, eu sei. Sei, consegui tudo que eu queria, é mesmo, mas aí passei a querer outras coisas. – Riu. – Uma casa no campo para compor muitos rocks rurais, uma motocicleta, queria ter poderes mágicos! Taí algo que eu sempre quis, mas nunca tive. Poderes mágicos e as feras para combater, sabe, sair correndo, ser herói no sentido mais profundo, mais ingênuo, mais trovadoresco da palavra. Pegar no colo mesmo, gritar, jogar para o lado, uma bagunça. Também nunca tive feras do tamanho dos meus sonhos... Fera quando a gente cresce vira vírus. Mas o que você ia falar mesmo? Meu mundo caiu, algo assim. Você gostava de Vinicius, de Tom Jobim, gostava desses caras que merecem ser gostados até hoje, mas de repente quem mudou o gostar foi você, fica ouvindo e amargando, feito essas menininhas bobas cheias de lágrimas nos olhos por achar uma flor esmagada entre as páginas dos livros. É, eu também gostava desses caras. Gostava no passado, como eu digo nas entrevistas: são um inspiração, é. Com certeza, uma inspiração, foi com ele que eu comecei isso, com o outro passei a prestar atenção naquilo, com certeza, e falo com o maior carinho que eu amei tanto eles até me tornar um igual, e é bem mais difícil de se amar quando se é um igual. Será que não é isso que te aflige, meu bem? Chegou no estágio em que já devia ter deixado de amar daquele jeito, mas o jeito em que se encontra não é o suficiente. Voltamos para o sofá, então, levanta da mesa do bar, coloca uns amendoins no bolso, e rumo à sala etérea.
(continua, talvez)

Nenhum comentário:

Postar um comentário