sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

contas do cordão (pequenos delírios)

(1)Havia um gato castanho lindo em frente a uma loja de malhas. Ele miou quando entrei, miei de volta disfarçada em um oi. Em frente ao espelho fiquei infeliz com os olhos muito vermelhos de cloro, entao ele se levantou e veio se esfregar na minha perna. Sentou logo ao lado, e após coçar atrás da orelha fixou os olhos além, em um ponto que não sei o que era. Finalmente foi se sentar de novo na porta e eu, que não me sentia sozinha, passei a me sentir.

(2)Gregorovius dizendo, argila é sombra concreta. Sombras dançam na página do livro. Japonesinha atrás de mim procurava o casaco esquecido no sofá.

(3) Se eu pudesse, te daria os reflexos de todas as poças formadas pela chuva, a mulher gritando que era o fim do mundo, a loja de embrulhos, o lixo empilhado no canto da rua. Se eu pudesse escolher um presente, escolhia os homens escondidos nas guaritas, os de boné virado para trás e os que desejam tenha um bom dia, daria o meu tédio diante de qualquer outro homem e dos jogos de sedução, também te daria as padarias e as lojas de doces, os sorvetes, as tardes na piscina, principalmente a hora do impulso contra a parede em direção a mais uma chegada. Os cobertores, os livros, as tramas antigas despidas de nomes e detalhes, liquefeitas pela memória como se passadas em um coador. Se eu pudesse, daria a melancolia após o almoço, a vivacidade da madrugada, o som das rodas de motocicleta contra o asfalto molhado, o olhar das pessoas dentro dos ônibus, os olhos de lanterna sobre o insulfilme.

(4) Hoje estoy libre, nem sei a quanto tempo engulo aquela merda de comprimido e me levanto ao som de buzina, sino, grito. Juro que estou feliz, se quiser mesmo ter ido embora, que se dane. Tem a encaixe e as pastas com divisória e capa florida, o teatro no final de semana e o restaurante da sexta feira, acha o que? Eu aguento sim, a culpa é sua o samba é meu. Aguento sim quando ela explodiu junto com o avião e ficou toda queimada, é só que os desafetos não deviam sumir no mundo antes de sumirem na gente. Fico agora nas ruas pensando nela sem procurá-la, sei mesmo que não ia achar, tem gente que quando coloca o pé na estrada é pra nunca mais, nem por acaso. Assim feito você, ou esse homem ao meu lado, de terno cheirando a fritura e a cerveja. O mundo não para, a responsabilidade é minha, a culpa é sua, mas mesmo assim você podia ficar aqui comigo, just a little longer.

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